sexta-feira, 8 de julho de 2011

Hoc erat in votis

Confesso que não sei bem o que impulsiona este trêmulo encetar de letras nessa folha branca que, em verdade, não existe. Já há muito aqui não escrevo, e isto por razões bastante simples, claras e diretas. Por provável, quem se deu ao trabalho de deitar os olhos sobre as discrepâncias aqui escritas ao longo de, ao menos, 395 dias (a vós, agradeço sinceramente), sabe a razão da pausa; e à esta causa, não me dá prazer algum retornar. E esse "não saber" a razão de hoje escrever, de per si, já seria o suficiente para impedir, obsedar ou mesmo desencorajar mais essa tentativa minha de, com palavras, estruturar algo útil. Mas, vá lá, darei uma chance ao acaso. Se o fruto não causar doce sabor, já aqui deito as desculpas antecipadas.

Nesses dias me peguei pensando nos rumos que a música tem seguido em nosso país. O pensamento era amplo e, por isso, naquele momento inicial não quis limitá-lo em classificar qual tipo de música e qual lugar do país a reflexão versava, quiçá por saber desde o início, lá no fundo d'alma, o lugar onde este pensamento travestido em nau atracaria. De qualquer modo, mesmo sem aparar as arestas desse pensamento, identifiquei um "lugar-comum" que acabou por servir como cerne da reflexão: "consumo". Cada vez mais, percebe-se uma nítida sinonímia entre música e consumo. Não que antes não fosse assim; mas tendo a acreditar que, mesmo nessa semelhança, havia, sim, uma importante diferença. Essa perspectiva melhor se compreende se particularizada.

Outrora, mesmo em terra brasilis, o rock n' roll (agora, classifico o "tipo" musical) carregou a característica emancipadora da livre expressão. Pense no Brasil da década de 1980; ao par da desordem econômica, florejou naquele solo a importante ascenção da identidade "roqueira" no país. Tantas e tantas bandas nos servem de exemplo para isso e, de um modo ou de outro, a "música rock" foi importante ferramenta para a lapidação da voz daquela juventude que, após quase vinte anos, recebeu novamente a liberdade antes recolhida aos quartéis - e com ela enfim em mãos, não sabia muito o que fazer.

Todavia, com o fluir do tempo (sempre ele), aquela voz muda começou a tomar contornos de som e, com um grande evento ao distante ano de 1985 (que aqui não nominaremos em respeito e temor a esse fantasma insepulto), a conotação política que caracterizaria essa desinência musical, naquele momento, ficou evidente. Não há muito o que negar (o próprio Sam Dunn o admite): o rock n' roll serviu, na década de oitenta do último século, no caso brasileiro, como o amplificador de uma geração que apenas queria passar uma mensagem: "cá estamos, existimos e daqui tão cedo não sairemos". Virando a ampulheta, na espera do último grão de areia que resta cair, chegamos ao hoje e, novamente, não encontro voz, amplificador e sequer uma alma viva. Apenas o que se vê é um grande salão vazio de gente, bagunçado de objetos e sujo pela falta de ideias.

Ligo o rádio e é extremamente difícil saborear o que se escuta. Abro os olhos, olho para a tela, e é extremamente difícil aprovar "aquilo" que eles promovem. Saio de casa, encaro a noite insône de Curitiba (agora, classifico também o local da reflexão) , perco a conta de quantos artistas verdadeiros tropeçam uns nos outros, madrugada adentro, sem muito espaço para mostrar sua arte; e realmente não entendo por qual razão o rádio ainda reproduz os mesmos sons e as telas, as mesmas faces. O rock n' roll, aqui e hoje (quiçá arrisque dizer que assim o é também em outras paragens) é como um ator sem um papel a representar, que sobe no palco sóbrio demais e, mesmo sem saber o que fazer (e não fazendo "lhufas" mesmo), acaba aplaudido por uma platéia cega e surda; muda, não é: ela fala, quase sempre coisas inúteis. Mas fala. Prova disso é a intolerância que quase sempre caracteriza a ausência de diálogo sobre o tema: cada um defende agredindo o outro aquilo que gosta ou julga gostar.

É a verdadeira sociedade de espetáculo traçada há muito por Guy Debord, agora revestida pelos traços de uma frústula chamada hiperconsumo, consectário da hipermodernidade, como bem identificou Gilles Lipovetsky. E nesse palco se encaixa a "música rock" do século XXI, sem um papel a representar, mesmo com inúmeras causas carentes de defesa espalhadas pela rua, mendigando atenção, desde aquelas que criam o riso, como outras que provocam as lágrimas. Aliás, uma voz escondida nos recôncavos da mente me alerta: talvez exista sim um papel, uma função para o rock brasileiro representar/desempenhar: ser o condutor dessa voz cega e surda que já há muito não tem o que dizer.

Mas ainda há tempo. Não precisamos esperar que outro garoto de Aberdeen sobote as estruturas do tablado que sustenta esse espetáculo triste para percebemos que nessa peça nada se encena (ou ainda, tudo se encena, de modo bastante falso e artificial).

Temos a oportunidade de transformar o caos em utilidade, de fechar os olhos e realmente enxergar, de ensurdecer os tímpanos para finalmente escutar. Assim, abandonaremos o passado, deixando de ouvir aquilo que já se foi, para construirmos o que todos escutaremos no futuro. Precisamos urgentemente de uma voz, de um som que nos caracterize, de uma mensagem que nos mova. Aqui, longe estou de incitar uma mítica e utópica luta contra os moinhos de vento; apenas quero partilhar aquela fome da alma, que todos nós sentimos, e que precede toda a criação da arte.

Acabo por descobrir o impulso deste ato de escrever. Criar com música. Como bem disse Horácio, hoc erat in votis; "era isso que eu desejava".

terça-feira, 29 de março de 2011

2011 - Angles

O site Galeria Musical publicou hoje uma resenha sobre o lançamento do novo álbum dos Strokes, "Angles", que conta com nossa assinatura.  Segue abaixo a reprodução na íntegra da resenha, que pode ser lida em seu formato original AQUI

Das bandas de real destaque que floresceram neste novo século, os Strokes foram, certamente, um dos grupos responsáveis por fazer despontar no horizonte um fio de esperança para a continuidade do bom rock n’ roll, distante, em certa medida, de todas as tendências nitidamente comerciais que permeiam a música da virada do ano 2000 até hoje. Com seu mais recente trabalho, a trupe de Casablancas seguiu a trilha neste mesmo sentido. E, no fim das contas, este é o seu calcanhar de Aquiles: com “Angles”, os Strokes acabaram por dar um passo longo demais na direção de tal horizonte.

De início, o que mais impressiona em “Angles” são dois elementos que, ao longo da audição, podem ser constantemente percebidos: a sua incessante fuga do óbvio e a sonoridade calcada nas diretrizes oitentistas. Esta última característica é nítida já nos segundos iniciais de “Machu Picchu”, faixa de abertura do disco. O beat provido por Moretti nessa canção (e como em boa parte das demais) é responsável pelo seu crescimento, pelo seu desenvolvimento – e também pela sensação de ter um “pezinho” nos anos 80, que também se manifesta na musicalidade da faixa “Two Kinds of Happiness”. David Fricke, crítico musical que dispensa apresentações, classificou o trabalho do brasileiro, em sua resenha para a Rolling Stone, como “estóico”, no sentido de que todas as demais passagens das canções (sejam das quatro ou seis cordas) nascem obrigatoriamente do movimento de suas baquetas. Talvez por isso, essa constante sonora seja percebida nas dez faixas que compõem “Angles” o que, por si só, não concretiza algo negativo.

Na verdade, as coisas ficam um pouco mais complicadas quando o referencial dos anos 80 se junta com a incessante busca pelo novo, com fuga do óbvio. Isso faz com que “Angles” seja diametralmente oposto ao cannonball representado por “This is It”. Aliás, em certa medida, “Angles” pouco se assemelha ao até então mais “ousado” trabalho da banda, “First Impressions of Earth”. Contudo, isto não significa que o mais recente trabalho dos Strokes seja descartável, pelo contrário; e diversas faixas dão conta desta perspectiva.

“Under Cover of Darkness” é prova disso, podendo ser considerada a canção mais “próxima” aos clássicos já destrinchados pelos Strokes. Das faixas que inovam, destaca-se “Call Me Back”, uma bela peça artística que remete o ouvinte para dentro de si, enquanto as seis cordas seguem em um compasso muito familiar aos tímpanos brasileiros. É uma canção calma e reflexiva, permeada por jogos de vocais, que em nada se assemelha à objetividade dançante de “Someday”, por exemplo. Mas é, de longe, a canção mais interessante que “Angles” tem a oferecer. Outro bom momento repousa em “Life is Simple in the Moonlight”, que potencializa as características de “Call Me Back” com acerto, aliando a sacada da letra com uma musicalidade interessante. Mas “Angles” também tem espaços para esquisitices sem sentido: “You’re So Right” faz uso de samples eletrônicos em MIDI para tentar concatenar as linhas de baixo e guitarra. De tão estranha e aparentemente equivocada, “You’re So Right” poderia seguramente estar incluída no novo disco do Radiohead, “The King of Limbs”.

Mas não se engane: “Angles” é um excelente disco. Afastado do óbvio, o álbum proporciona uma nova e interessante reflexão, ora desconexa, ora objetiva, mas, ainda assim, nitidamente artística. O grande problema reside na irresistível comparação com os trabalhos que o precederam: em tal comparativo, “Angles” não parece fruto do trabalho dos Strokes, mas sim de uma banda cuja identidade ainda não fora bem delineada. No fim, Casablancas e cia. merecem aplausos pela coragem de soltar as amarras do passado e voar em direção ao novo. Uma pena que isso não traga como resultado aquilo que muitos queriam ouvir.

domingo, 13 de março de 2011

2011 - The King of Limbs

Em tempos nos quais a figura do spoiler apresenta cada vez mais força, esperar um certo tempo após o lançamento de um álbum inédito para  ouvi-lo com cuidado parace ser uma atitude de bom senso. Não que as resenhas deflagradas com o lançamento de discos representem uma espécie de "contaminação" à opinião alheia; longe disso. Mas é inegável que o período de maturação de algumas semanas após o surgimento dos trabalhos inéditos proporcionam uma audição mais limpa: a leitura dos textos que inundam as vistas de muitos servem apenas como mero referencial que, geralmente, se perde quando o leitor passa a ser ouvinte sincero de um novo registro. Portanto, este texto não foge a regra: é mais um entre tantos outros e talvez não agregue nada de novo para leitor algum. Mas essa espera para ouvir atentamente "The King of Limbs", nova supresa do Radiohead para o mundo, traz bons frutos para quem possui paciência.

Após quatro anos de um hiato bastante compreensível, a trupe de York foi mais longe em termos de complexidade do que o mais incrédulo ouvinte poderia supor. "The King of Limbs", oitavo registro do Radiohead, apresenta-se modulado em formato clássico cujo conteúdo prentende, incessantemente, apontar para o futuro. Formato clássico, sim: o álbum conta apenas com 8 faixas (oitavo disco, que coisa não?) e é bastante direto, assim como boa parte das coisas boas havidas na década de 80 (olha o "8" de novo aí) o foram: o debut do Iron Maiden, "Let's Dance" de David Bowie e "Master of Puppets" do Metallica são bons exemplos disto. Mas, do clássico, "The King of Limbs" vai em busco do novo, daquilo que não se conhece: é, em síntese, um disco difícil, complexo, que se apresenta diferente a cada audição e percebe diretamente os efeitos do ambiente em que o disco é projetado e ouvido.
 
Esta é a impressão que "Bloom", faixa de abertura, deixa transparecer. Parece ser o tema inicial ou de encerramento típico de um bom filme cult: experimento ouvir "Bloom" visualizando trechos de "Blade Runner" e você irá se sentir o próprio Deckard no encalço apaixonante dos Replicantes. Essa sonoridade complexa representa uma espécie de fio condutor que conduz o ouvinte por todo álbum: provas disto estão no corpo de "Feral", canção mais "radiohead" - leia-se "para lá de curiosa" - na carreira do Radiohead. Mas não é somente sons e impactos que "The King of Limbs" é composto: ele também é estruturado por inúmeras palavras que, unidas, formam um belo bofete no rosto de nossos tempos hipermodernos.

A letra de "Little by Little" é um bom exemplo disso: "Obrigações, complicações, rotinas e compromissos, é o trabalho que está matando você". O cumprimento hipócrita percebido em "Morning Mr. Magpie" pode igualmente ser interpretado como um descontentamento nitidamente atual: Mr Magpie é o "ladrão" da criatividade de nosso dia a dia, responsável pela mesmice que há muito percebemos. Como um todo, o novo álbum do Radiohead apresenta inúmeros significantes no que tange às suas letras, tanto que poderíamos escrever páginas e páginas sobre o tema.

Retornando ao quesito "musicalidade", apesar de muitos apontarem "Lotus Flower" como a canção mais fácil de ser digerida do novo disco, aqui temos que "Codex" e sua interessante condução ao piano representam os sinais mais característicos das "baladas" (e as "aspas" aqui fazem-se necessárias) que o Radiohead já produziu, a exemplo de "Fake Plastic Trees" e "Karma Police", o que a torna mais saborosa se comparada às demais faixas, cuja ausência de refrões e passagens complicadas tornam a audição um pouco mais complicada para quem não está habituado ao universo de paradoxos que o Radiohead é capaz de criar.

De qualquer maneira, levando-se em conta as inúmeras obras musicais intragáveis que somos obrigados a "degustar" todos os dias, "The King of Limbs" merece ser brindado como um ode à criatividade. Ainda que não seja um álbum apto a furar os cd players após infinitas audições, o mais novo registro do Radiohead não é, nem de longe, vazio: as inúmeras texturas que o compõem informam uma qualidade que poucos artistas são capazes de evidenciar nos dias de hoje. Will Hermes, crítico musical da Rolling Stone, ao analisar "The King of Limbs" fez uso do termo blossoming que, em linhas gerais, indica a ideia de florescer. Quem sabe é isto mesmo que "The King of Limbs" represente, o florescimento de uma criatividade complexa e diferente que luta para manter-se viva. Se isto é bom ou ruim, só o tempo dirá. Até lá, apenas uma coisa é certa: o mais recente trabalho do Radiohead, para ser de fato compreendido, merece uma dezena de audições. Paciência é, pois, uma virtude.
Set List:

1. Bloom
2. Morning Mr. Magpie
3. Little by Little
4. Feral
5. Lotus Flower
6. Codex
7. Give Up the Ghost
8. Separator

quarta-feira, 9 de março de 2011

Blindagem e Pão de Hamburguer Sobem ao Palco do Blood Rock Bar



Na próxima sexta-feira, dia 18/03, duas gerações do rock paranaense promoverão um encontro inesquecível: a eterna Blindagem recebe no palco do Blood Rock Bar a boa música do Pão de Hamburguer, banda destaque do cenário independente curitibano, que vem galgando importantes passos na sua carreira e impulsionando, por consequência positiva, a formatação da cena curitibana. A noite ainda conta com a participação da notória .50, power trio que, a cada dia, agrega para si um público crescente e fiel.

Em 2010, o Blindagem e o Pão subiram, no dia 23/04, ao mesmo palco do Blood Rock para homenagear Ivo Rodrigues, que nos deixou em 8 de abril daquele ano. A noite do dia 23 foi uma daquelas merecedoras do adjetivo da singularidade: apesar do frio e de uma garoa incessante, o público presente pode sentir e fazer parte de uma noite mágica, sublime, onde as canções do ontem  e do hoje se juntaram para celebrar a eterna vida de Ivo. O Rock Pensante lá esteve, e a resenha daquele show memorável pode ser lida AQUI

Por conta deste prospecto impecável, já seria obrigatória a presença do público no Blood Rock Bar. Porém, como na música tudo é alegria, pode-se ter plena certeza de que a apresentação da próxima sexta irá superar o show do ano passado. Depois de apresentar-se com a benção do Sol no festival Psicodália, o Pão de Hamburguer vem com ânimo renovado, apresentando as canções que compõem seu DVD "Ao Vivo no Guairinha" e o EP que resultou da participação do Projeto Gravando Curitiba, além de material inédito, produto das novas composições dos "breads". Já o Blindagem...  Bem, Blindagem é Blindagem, e dispensa qualquer tipo de apresentação ou comentário: sua história e sua música eterna o precedem.

Eis então a missão do público fiel da boa música paranaense, que independe de rotulações desnecessárias: comparecer ao Blood Rock Bar para celebrar, uma vez mais em uma noite única, os novos nomes do rock curitibano e seu eterno grupo, cuja história se mistura com a nossa história. Ivo, lá de cima, já está a aplaudir. Agora é nossa vez.

18/03/2011 - BLINDAGEM, PÃO DE HAMBURGUER & .50

Local: Blood Rock Bar (Rua Carlos Cavalcanti 1212)
Horário: a partir das 23h
Valores: Ingressos no local e na hora - R$ 10,00 (Masculino e Feminino) 

OUÇA MÚSICA CURITIBANA:




12/03 - Saturday Hard Night com Silvermoon no Hangar Bar Curitiba


Passado o carnaval, é hora de esquecer o som dos pandeiros e regressar à boa rotina rocker que tanto nos motiva. Para tanto, nada melhor que curtir os eternos clássicos do hard rock com a banda que mais entende do assunto em Curitiba: Silvermoon, referência no quesito tributo em Curitiba, subirá no palco do eterno Hangar Bar, no dia 12/03 (sábado), para povoar a noite curitibana com o melhor do hard rock  e AOR.

Sempre preocupada em oferecer com seus setlist's pérolas do subgênero mais cativante do Rock n' Roll, a Silvermoon é amplamente reconhecida por ser a tradução de um saboroso espetáculo, onde o público é quem sai ganhando. Quem já participou das noites de alegrias capitaneadas pelo grupo, sabe o quanto isso é verdade.

Ademais, para aqueles que comparecerem ao Saturday Hard Night, além de aproveitar o melhor do hard rock curitibano, será possível também prestigiar Ronaldo Jr, vencedor do 1º Prêmio Ivo Rodrigues como melhor tecladista, pelo seu trabalho com a banda Dark Symphony. A premiação, concretizada pela ímpar iniciativa do Arquivo Metal Cwb coroou os detaques do rock/metal em Curitiba, promovendo ainda mais a cena curitibana, que vem mostrando um irrefreável crescimento.

Pois bem, sejamos urgentes. Confira as informações abaixo e participe desta celebração do Hard Rock curitibano com uma das melhores bandas de nossa cidade. Nos vemos lá!!

Cheers!!!

SATURDAY HARD NIGHT - DIA 12/03/2010

   - Bandas: Silvermoon (Hard Rock-AOR) e Whisky (Motley Crüe Cover)

Local: Hangar Bar (Rua Dr. Muricy, 1091 - Largo da Ordem)
Horário: A partir das 22h
Valores: Entrada a R$ 10,00 (Mulheres têm free pass até às 23h) 

Saiba mais sobre a banda Silvermoon clicando AQUI

Acesse a agenda completa do Hangar Bar clicando AQUI 

sexta-feira, 4 de março de 2011

1988 - Live at the Ritz

Na segunda metada de década de 80, o Guns n' Roses ostentava um título ao qual fez por merecer: a banda mais perigosa do mundo. Essa "fama" surgiu dos shows da banda que, no início da carreira, eram próximos ao caos, sem qualquer exagero residindo nesta afirmação. Na verdade, esse "caos" já era percebido antes mesmo da memorável junção do L.A. Guns com o Hollywood Roses, quando Slash, anos antes, já fazia misérias nada musicais em sua "banda embrião", Tidus Sloan, e Duff McKagan circulava pelo circuito punk de Seattle. Essa era, de fato, uma característica que unia o Guns n' Roses como uma irmandade: a vida levada ao extremo, recheada de pobreza, drogas e violência.

Pode até soar clichê, mas era disso mesmo que o Guns era feito, como se fossem uma versão anos 80 do Hanoi Rocks, banda que vivia tão encharcada em drogas que era capaz de deixar o Aerosmith e Nirvana no chinelo. Depois de firmado o contrato com a Geffen Records, que culminaria com o lendário "Appetite for Destruction", pouca coisa mudou neste cenário, que alternava momentos de explosões (como a apresentação em um pequeno clube de L.A., onde Axl, para variar, arrebentou a cabeça de alguém da platéia) e de apresentações mais profissionais, como esta que vem à tona, resultante do áudio em MP3 do DVD do show feito no Ritz, em Nova York, no ano de 1988.

Quando ouvimos as canções desse show, sentimos saudades de como o Guns era e, até certo ponto, o que ele representava. Todos os elementos essenciais da banda estão lá: desde a vigorosidade obscena do grupo até o descontrole da platéia, visto quando um desatinado tenta retirar o microfone de Axl. Isso sem contar a performance memorável de todos, seja no auto-controle de Izzy e Duff, na alegria pueril de Adler ou na selvageria que Slash apresentava. Destaque especial para a execução clássica de "Knockin on Heavens Door", mais simples se comparada à extensa versão vista na turnê dos Ilusions. Eis o Guns n Roses em estado bruto, que muito nos faz falta nos dias de hoje.

Cheers!!!


Set List


1. It's So Easy
2. Mr. Brownstone
3. Out ta Get Me
4. Sweet Child O'Mine
5. My Michelle
6. Knockin' On Heavens Door
7. Welcome to the Jungle
8. Nightrain
9. Paradise City
10. Rocket Queen


CLIQUE AQUI P/ FAZER O DOWNLOAD

quinta-feira, 3 de março de 2011

2010 - Aqua

Um disco de... literatura? Observando o conceito que permeia "Aqua", novo disco do Angra, tal definição torna-se verdadeiramente plausível. É comum que diversas bandas desinentes do heavy metal passem a objetivar algumas canções (ou um álbum inteiro, como é o caso) baseados em poemas, contos, livros ou ensaios filosóficos. Na verdade, o metal é um terreno fértil para esse tipo de projeto, em grande parte de suas vertentes: por ser complexo e, até mesmo, refinado, o diálogo cultural do metal com outras manifestações artísticas geralmente garante bons frutos. Todavia, as coisas tendem a ser mais complicadas do que aparentam em primeira impressão, ainda mais quando se trata do esperado lançamento de uma banda amada por muitos. Por isso, antes de alçarmos a "análise" de algumas faixas e do próprio conceito que permeia "Aqua", é imprescindível que algumas ressalvas sejam feitas.

Vimos como exemplo, nos últimos dias, a dimensão de discussões que um lançamento relativo à uma grande banda pode causar: "The Final Frontier", do Iron Maiden, provocou um verdadeiro debate entre os fãs do grupo, que não recearam em expor opiniões sobre o álbum, sejam elas espelhadas ou não em bom senso (como ocorreu com a maioria delas). Pouco antes do lançamento de "Aqua", os pessimistas de plantão já "alertavam" para o fracasso e, quando finalmente saiu, tais opiniões permaneceram na minoria. Portanto, o que será feito nesta resenha não se vincula à uma ou outra corrente de pensamento: trata-se de uma análise sensata e imparcial de um álbum de heavy metal que traz em si um conceito literário, experiência salutar que deve ser apreciada até o último momento. Lógico, não podemos fazer tal análise desvinculando ao álbum da figura do Angra, mas, na medida do possível, tentaremos observar "Aqua" por um prisma neutro, tecendo comparações somente quando indispensável, ou então, quando tal comparação trouxer bons frutos.

Pois bem. O conceito que permeia "Aqua" deriva daquela que é considerada a última peça que Shakespeare escreveu em vida, "A Tempestade", cuja data é indicada por alguns como em torno de 1612(muito embora existam fontes que asseverem que a peça fora em encenada pela primeira vez em 1611, no palácio Whitehall, em Londres).

A obra trata de temas usuais, geralmente presentes nos trabalhos shakesperianos, como traição, amor, vingança, conspirações e traços da sociedade do século XVII, que mostram o ser humano e suas faces, sejam aquelas grotescas ou amigáveis. Em breves linhas, a história narra a tragédia de Próspero, antigo Duque de Milão, apaixonado pelo conhecimento e pela arte da magia, é traído por seu irmão Antonio, que almeja ocupar seu lugar no cenário político local. Após o golpe de seu irmão (que contou com o apoio de outros nobres), Próspero e sua filha Miranda são abandonados em uma ilha distante, que serve de cenário para a peça. Quando o rei de Nápoles, anos mais tarde, e sua comitiva real (que conta com os mesmos nobres que traíram Próspero, inclusive seu irmão, agora Duque) retornam de uma viagem marítima e aproximam-se da ilha de Próspero, uma intensa tempestade (criada pela magia do Duque traído) abate os navios reais e fazem com que seus ocupantes sejam trazidos, pelo mar, até a ilha, onde Próspero pretende completar sua vingança, instaurando a loucura em todos aqueles que o traíram. Todavia, como em toda peça shakespeariana, o amor surge para fixar-se ante a vingaça: Miranda, filha de Próspero, apaixona-se pelo filho do Rei de Nápoles.

É neste ambiente inicial que "Viderunt Te Aquae" e "Arising Thunder" surgem para abrir e apresentar "Aqua" aos ouvintes. As canções ambientam-se na tempestade criada por Próspero para destruir os navios de Nápoles e trazer à ilha os seus desafetos. "Viderunt Te Aquae" aposta na conhecida receita do Angra em transformar as canções de abertura em peças instrumentais concisas que criam o terreno para a força da faixa seguinte, ao exemplo de "Deus le Volt!" e "In Excelsis". "Arising Thunder" aposta em criativas linhas de guitarra e em um refrão de qualidade para prender a atenção do ouvinte. Em alguns instantes, é possível perceber a influência de Malmsteen na canção. A letra, ao seu turno, caminha em passos certos à história de Shakespeare, apresentando a vingança de Próspero, representada pelos trovões de sua tempestade.

Adiante, "Awake From Darkness" introduz um dos melhores momentos de "Aqua": o riff da canção sustenta-se em uma criatividade ímpar, refletindo o peso do som que estamos habiatuados a ouvir. Kiko Loureiro e Rafael Bittencourt fizeram nesta faixa um excelente trabalho. A canção atinge seu clímax após o refrão, quando o compasso acelerado é abreviado por um retrato mais calmo, pintado por pianos e violinos. Ao seu fim, o peso retorna com as seis cordas, em um solo memorável e interessante, que conduz a canção até o seu fim. "Awake From Darkness" ambienta-se na reflexão de Próspero, ao contar para a sua filha Miranda o duro golpe que sofreu com a traição de seu irmão. Seus sentimentos são palpáveis nos versos iniciais da canção: "Out in the dark I roam/Onward to meet my fate/Time's an illusion today/Away from all I know/A frail that is filled with pain/Feeling the lifeless taste ahead/I wish for no more than air". Na mesma canção também é possível trafegar pelo âmago da vingança de Próspero, e a importância de sua paixão pelo conhecimento, que o libertou do medo e ensejou os primeiros passos de sua vingança.

Adiante, "Lease of Life" abre mão da roupagem mais densa e pesada do início do álbum para criar um ambiente mais rebuscado e leve. A canção procura proporcionar ao ouvinte a chance de penetrar na atmosfera de "A Tempestade" narrando o encontro de Ferdinando, filho do Rei de Nápoles, com Miranda, filha de Próspero. Ferdinando, após a tempestade, é atingido pelos encantamentos de Arial, espírito a serviço de Próspero, que o faz ouvir vozes e cânticos de ninfas. Atormentado e julgado-se louco pelas vozes que houve, sua desorientação cessa apenas quando encontra Miranda vagando pela ilha: eis que surge o já famoso traço do "amor" shakespeareano. Apesar de ser uma canção muito bem trabalhada e narrar de modo fiel o conceito que a conduz, "Lease of Life" destoa do peso inicialmente observado em "Aqua" e, de certo modo, chega a afastar-se da sonoridade da qual o público da banda está acostumado. Talvez por isso, tal faixa leve um certo "tempo" para ser compreendida por completo.

"The Rage of Waters" também apresenta um quadro interessante que acaba por fugir um pouco da receita usualmente percebida no Angra. É também nela que percebemos o diferencial presente no trabalho de Ricardo Confessori, nitidamente mais ligados aos ritmos "étnicos" brasileiros: a percussão demonstra a positiva possibilidade de se explorar novos e antigos elementos. Mais a frente, "Weakness of a Man" repete tal premissa, desta vez com Kiko Loureiro guiando o leme criativo da canção. Todavia, nem mesmo todas estas qualidades livraram "Aqua" de alguns equívocos, como a música "Hollow", sustentada por um desenvolvimento opaco levado ao extremo ao retratar toda a mágoa e ódia que guiava Próspero em sua vingança.

Em suma, "Aqua" apresenta uma resultante final capaz de surpreender alguns fãs do grupo, justamente pela sonoridade mais calma que algumas canções apresentam. Todavia, essa estranheza se encerra a partir do momento em que o ouvinte lê "A Tempestade": é nítido que seria impossível ao Angra retratar a história de Próspero mantendo o peso natural de seu som. As nuances contidas nas canções representam as mudanças de tons da própria obra de Shakespeare; elas se moldam para retratar, em modo mais próximo possível, por exemplo, como a vingança de Próspero tornou-se arrependimento e como diversos outros fatores e sentimentos incrustados em tal história se estruturam. Por isso, seria interessante que, ao ouvir o disco, o ouvinte também lesse "A Tempestade", sob pena das alterações sonoras de"Aqua" não fazerem lá muito sentido ao ser executado.

Esta talvez seja a "desvantagem" de se adpatar um conceito à um disco, e retratá-lo através da música: se não seguir-se o rumo da história e retratar seu ambiente, o disco perde sua razão de ser, transformando o diálogo entre literatura e música em um punhado de coisas sem muita lógica. Por isso, não há muito o que contestar: "Aqua" é um excelente resultado temático, e todos os integrantes do Angra obtiveram êxito em desempenhar suas funções. De fato, "A Tempestade" de Shakespeare não poderia ser contada de melhor forma.

Cheers!!!

Set List:

1. Viderunt Te Aquae
2. Arising Thunder
3. Awake From Darkness
4. Lease of Life
5. The Rage of Waters
6. Spirit of the Air
7. Hollow
8. A Monster in her Eyes
9. Weakness of a Man
10. Ashes

Para ouvir "Aqua", basta acessar o Myspace do Angra clicando no banner ao lado direito da tela.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Curitiba Pede "Esquenta" para Apresentação de Slash


Curitiba já deu o start na contagem regressiva para a apresentação de Slash, que ocorrerá daqui há exatos 38 dias no Curitiba Master Hall. Em geral, pode se considerar como "regra" o fato de que um evento deste porte demande uma série de outros acontecimentos paralelos, como pequenos shows dispostos a escaldar a alma do público com aperitivos daquilo que virá. Assim, a principal missão dos "esquentas" é basicamente isto: instigar o público alvo a comparecer no evento principal, fomentando diversão, música e, certamente, lucro, tanto para quem abre as portas para o evento, como para quem se dirige a ele. Afinal, em um show da mesma dimensão percebida no trabalho de Mr. Saul Hudson, é certo que o público alvo é bastante extenso.

Com isso em mente, os fãs de hard rock curitibanos se uniram e iniciaram uma campanha para promover mais um "esquenta", desta vez para o show de Slash. Tanto o local como a banda tributo já foram escolhidos: o palco desejado pelo público é o Crossroads, e a banda, a Rock n' Roses, que já há um bom tempo atravessa o Paraná levando o nome do clássico Guns n' Roses aos cantos e recantos paranaenses.




De antemão, você pode estar se perguntando: "Mas que besteira! Por que diabos uma banda cover de Gn'R vai ser responsável pelo esquenta do show de Slash???" A resposta é dada pelo próprio público: é certo que, apesar de eternamente ligados, Gn'R, hoje, não é sinônimo de Slash, nem vice e versa. Porém, Curitiba, até o presente momento, não possui uma banda tributo específica ao "Sr. Cartola" (aliás, pelo que se tem notícia, o único grupo "100% Slash" do Brasil reside no Rio de Janeiro), e a Rock n' Roses, em suas andanças, já se mostrou muito capaz ao qdar conta da missão de interpretar o Guns e apresentar os maiores clássicos de Slash, seja em canções de seu recente trabalho solo, ou algumas pérolas do SnakepitVelvet Revolver.

A campanha começou na comunidade do Orkut do Crossroads, e já está se espalhando pelo Twitter e pela caixa de email da gerência da casa roqueira mais tradicional de Curitiba. Para participar é simples: basta clicar AQUI para acessar o tópico da comunidade do Cross no Orkut e deixar lá seu recado, apoiando a concretização do esquenta com a Rock n' Roses. Por Twitter, a missão é mais fácil ainda: basta disparar 140 caracteres de apoio ao evento para @barcrossroads e contribuir ainda mais com este pedido crescente. Aliás, fica aqui uma ressalva: bom seria se o público curitibano tivesse tamanha disposição para ajudar igualmente as bandas que constroem sua arte a galgar ainda mais espaço.

Fica aqui, então, a dica: se você é um dos milhares de rockers que irão invadir o Master Hall no dia 08/04/2011 e quer intensificar ainda mais este acontecimento com uma "prévia" do que está por vir, vote no Orkut e no Twitter para ajudar na concretização deste evento. Este diálogo entre público e casas de show é imprescindível para o crescente desenvolvimento da cena musical da cidade. Vejam os links abaixo e votem!

Cheers!!!

Comunidade do Crossroads no Orkut para votação: Clique AQUI

Twitter do Crossroads para mensagens de apoio: @barcrossroads


Votos também podem ser enviados por e-mail para o endereço: contato@crossroads.com.br


Conheça mais sobre a Rock n' Roses acessando: http://gunscovercuritiba.blogspot.com/


Perfil da banda no Orkut: Clique AQUI  para visualizar e adicionar

sábado, 5 de fevereiro de 2011

The White Stripes: O Fim do Começo


Antes que o leitor principie a leitura das linhas seguintes, peço a lincença poética tipicamente machadiana para intervir diretamente e solicitar que, antes de deitarem-se os olhos sobre o texto, se compreenda o seguinte: pontos de vista foram feitos para debate, e não para massacre. Acostumou-se a natureza humana a rechaçar tudo aquilo que era avesso à sua certeza quando melhor seria, por certo, aprender (ou ainda, "apreender") com a diferença. Sempre acreditei que boas críticas ou reviews - sejam elas sobre cinema, música ou qualquer outra manifestação artística - são aquelas que retiram o leitor de sua "zona de conforto" e lhe apresentam o novo, o contraponto daquilo que usualmente é oferecido para o consumo inteligível. Com isto, estimula-se o leitor para o ato de pensar, e fazer com que ele alcance aquilo que estaria distante da simples repetição do conteúdo que, para si, já era conhecido. 

Pois bem. Há menos de dois dias, os White Stripes oficializaram o fim de seus misteres, fato este que certamente não constitui novidade alguma, mas nos remete, ao menos, para uma reflexão. Talvez, por conta disso é que o presente texto encontre "sua razão de ser": fazer o leitor levantar, fechar as pálbebras, abrir os olhos e refletir sobre uma obra que trafega na contramão das formalidades.


Em 14 anos de intermitente produção, Jack White e Meg White (confessa-se: mais o primeiro que a segunda) consolidaram mais de meia dúzia de registros oficiais. Destes, muito há que ser destacado, e por conta disso é que não nos deteremos na qualidade de cada disco e etc. Vamos propor uma reflexão sobre os pontos mais curiosos e cativantes acerca da consolidação do trabalho da banda. Como diria o poeta bêbado  Bukowski: "here we go".

Quem sabe, por apego à arte ou qualquer coisa pura do gênero, o que Jack White propôs, desde os primeiros passos, foi algo próximo do que a arquitetura desconstrutivista propunha ao fim dos anos 80: modular, em síntese, a partir de uma construção não linear, a manipulação das ideias mais "superficiais" e palpáveis ao público. Desde o primeiro passo, Jack buscou no anverso (parte frontal de qualquer objeto com duas faces) demonstrar, de certo modo, como a arte se estrutura de modo "não-linear", cru e sem uma razão óbvia. Talvez por conta disso, o álbum homônimo de estréia dos White Stripes tenha soado menos competente do que realmente é. Em certa medida, ainda que com velada desconfiança, o mesmo tenha ocorrido com os dois trabalhos seguintes da banda: "De Stijl" e "White Blood Cells". Mas, mesmo que sob perspectiva pessimista, há que se contextualizar ambos os trabalhos (e ainda aqueles que os sucederam) sob um contexto artístico temporal.



No horizonte do século XXI, pouco se fazia sobre o rock n' roll. Fusões, misturas, regressos: muito do que se construiu pouco se agregou ao "novo" que alguns buscavam. Eis, então, que emerge uma "dupla" que, a partir de perspectivas artísticas, acabou por sublimar todas as justificativas de sua sonoridade: a partir das tríades das cores branco, preto e vermelho e das perspectivas narrativa, melodia e ritmo, os Stripes alicerçaram a desconstrução necessária para um (re)começo, assim como o foi quando "Smells Like Teen Spirit" abriu, pela ignorância, os portões do novo que há muito se buscava. Das batidas pueris que principiam a primeira canção do primeiro e homônimo disco dos Stripes - "Jimmy the Exploder" - até a derradeira faixa de "Icky Tump" - curiosamente intitulada de "Cause & Effects" - este descompromisso proposital é percebido. Para quem quiser ir mais a fundo (e aqui seria prazeroso fazê-lo), basta dar o play no excelente "It Might Get Loud" para ver o Sr. White "construindo" uma "slide guitar" (sim, o termo tecnicamente não existe) e afirmando, em alto em bom som, depois de fazer a música reverberar: "Quem foi que disse que você precisa comprar uma guitarra?"

Este sempre foi o norte dos Stripes: através do adverso, extrair o que há de melhor. Até mesmo o envolvimento com a "vanguarda artística holandesa neoplasticista" possui suas razões - e longe disso há algo que pareça insensato, pueril ou desnecessário. Há muito que o niilismo deixou de ser o "vazio pelo vazio" para preencher aquilo que faz falta. Talvez aí resida a razão que justifique o "impulso" de Jack White "emprestar" o ideal punk para consolidar algo que há muito era necessitado. Assim como Kurt Cobain o fez dez anos antes (ainda que sem a mesma virtuose) comprovou-se que do vazio também brotam lírios, e que dos lírios exsurgem os perfumes que impulsionam a critativade daqueles que se propõem a tentar compreende-la. E foi assim, na mesma trilha que "The Velvet Underground" e "The Cramps" haviam seguido décadas antes, que a banda "The Upholsterers" - primeiro "grupo" de Jack White -  desconstruia o tecido do passado para alicerçar o cimento do que seria feito no futuro, arrematando o avesso que havia no material. Afinal, como Clarice Lispector já afirmava, "(...) e das plantas vinha um cheiro novo, de alguma coisa que se estava construindo e que só o futuro veria." Para o futuro se guardou o melhor, e é adiante que a compreensão deve ser buscada.


Nesses moldes é que assentaram-se as "formas" das pedras fundamentais da banda: "Elephant" e "Get Behind Me Satan". Mesclando força despretensiosa com canções fáceis de assoviar, os Stripes reformularam o manjado clichê do "verso-refrão-verso" para consolidar algo novo: às linhas simples de guitarra mesclaram-se a sonoridade barata do teclado remendado. Sons atonais e simplesmente complexos preencheram as lacunas vazias, superando o niilismo colocado como pressuposto. Eis que o "dado" acabou por ser "reconstruído", e com isso, a arte foi quem de fato lucrou.

Muito do que os White Stripes fizeram veio em consequência do fascínio que o Flat Duo Jets, banda oriunda da Carolina do Norte composta por apenas uma guitarra e bateria, exerceu sobre Jack White, principalmente no que diz respeito às interpretações da banda sobre as canções folclóricas do blues americano. Plágio de uma boa ideia? Como ensinou Mick Wall na obra "Quando os Gigantes Caminhavam sobre a Terra", vale advertir: "David Bowie plagiou os Stones em 'Rebel Rebel'; os Stones plagiaram Bo Diddley em 'Not Fade Away'; os Beatles plagiaram Fats Domino em 'Lady Madonna'; e todo mundo plagiou os Beatles em alguma coisa." É assim que a arte nasce: de influência. Quem acha o contrário, que queime todos os discos do Zeppelin, pois muito do que há neles é "influência" de alguma coisa.




Enfim, o que os White Stripes propuseram nesses anos foi um novo meio de encarar, ouvir e consumir o rock n' roll. Olvide dos clichês inerentes a "quem é" Jack ou Meg White: irmãos, amantes, lunáticos... Não importa. Muitos artistas eternos lançaram mão dessa ferramenta marqueteira, e o alfabeto da história é repleto de exemplos; e nem por isso tais artistas/bandas foram renegados. O que se tem aqui é arte: atonal, microfônica e objetiva, assim como Beethoven foi para o século XVIII e Kubrick para o século XX, guardadas, claro e por certo, as devidas proporções do bom senso.

Mas o que se atendeu foi a súplica por mudança, e isso os Stripes fizeram com louvor: foi o anverso exposto pelo verso na busca de se evidenciar que, pelo não óbvio, a arte fica mais amarga e prazerosa. Abre-se mão do clichê para reconstruir algo que ainda não fora visto, sentido ou ouvido. A história tem desses caprichos, e por vezes somos agraciados com o testemunho de sua realização. No último dia 5, oficialmente encerrou-se um desses exemplos. Chega, então, o momento de buscar mais uma vez o novo. "O White Stripes agora é de vocês", disse Jack White. Façamos dele, então, o trampolim para o melhor que ainda está por vir.

11/02/2011 - Blindagem, Trem Fantasma & Plexo Solar no Blues Velvet.


A noite do dia 11/02, próxima sexta-feira, promete ser prazerosamente longa: Blindagem, Trem Fantasma e Plexo Solar (que apesar não constar no cartaz já está mais do que confirmado) promoverão um interessante encontro de distintas gerações do rock paranaense no palco do Blues Velvet.

O Plexo Solar vem paulatinamente firmando-se como uma nova e interessante fonte criativa artística. Com canções que nos remetem à reflexão e ao "balancê" incontrolável do corpo, a banda promove uma sonoridade que contagia na medida certa. Ao seu passo, o Trem Fantasma, de paleta e pincel em mãos, tem desenhado um novo horizonte só para si. Desde a chegada de Marcos Dank em meado de 2010, o grupo tem levado suas canções para terras antes não conhecidas ou exploradas. Quem ganha com isso certamente é o público, que além da usual força da banda, pode agora partilhar um pouco deste "novo" horizonte, show após show. Já o Blindagem... Bem, Blindagem é Blindagem: e isto já é explicação suficientemente capaz de descrever a relevância e importância desta banda para o cenário musical brasileiro.

Pois bem, é tempo de (contrariando a boa lógica machadiana) atar na extrimadade do presente o laço do passado e viajar por sons e cores nessa noite em que a história tende a ser o fio condutor a guiar a música, arte potencializada à melhor qualidade por esses grupos. Quem viver, verá.

Cheers!!!

BLINDAGEM, TREM FANTASMA & PLEXO SOLAR

Data: 11/02/2011
Local: Blues Velvet Bar (R.: Trajano Reis, 314 - Fone: 3077-1794)
Valores: R$ 15 (Masc) & R$ 10 (Fem) 

OUÇA MÚSICA CURITIBANA!

- Plexo Solar: http://www.myspace.com/oplexosolar  (@plexo_solar)
- Trem Fantasma: http://www.myspace.com/tremfantasma (@TremFantasma)
- Blindagem: http://www.myspace.com/bandablindagem (@blindagem)