quarta-feira, 10 de março de 2010

1981 - Music From "The Elder"

A década de 80 começou de modo adverso para a banda mais quente do mundo. Depois de ter conquistado grande parte do público de hard rock de quase todos os rincões deste planeta, era chegado o momento em que o KISS decidiria se seguiria em frente ou jogaria sobre sua própria cova a última pá de terra.

A banda encontrava-se amplamente desgastada. Todo o sucesso fez com que a megalomania existente em cada um aflorasse peremptoriamente. Em duplas, a banda se dividiu de modo determinante: de um lado, Paul e Gene queriam satisfazer seus egos e levar a banda adiante; Peter e Ace singraram pelas marés dos excessos e descaso pelo trabalho construído nos anos 70. No meio de todo este embate, o KISS tentava encontrar uma maneira de manter-se comercialmente firme e corresponder ao fiel Army que os seguiam até então. Flertando com a disco music, "Dinasty" angariou mais fãs e satisfez, de certo modo, os antigos. No entanto, o sucessor "Unmasked", de 1980, foi considerado na época como um verdadeiro tapa na cara (na pior acepção do termo), tamanha é a inclinação pop do álbum. Como pior resultante, Criss deixou a banda e, em 1981, o KISS queria reestabelecer seu império.

Apostando em uma velha receita, Simmons e Stanley recrutaram Bob Ezrin, produtor de "Destroyer" e que havia aumentado ainda mais seu status em 1979 ao conduzir a produção do melhor álbum conceitual da história, "The Wall", do Floyd, para guiá-los em tal empreitada. O escopo inicial seria produzir um registro de estúdio extremamente pesado que, além de renovar o som da banda, ensejaria o agrado de gregos e troianos. Todavia, diante do monumental sucesso comercial de "The Wall" (que até nos dias hoje, marcados por downloads, registra a venda de milhares de cópias anuais pelo mundo), Simmons e Stanley perceberam a chance de pegar carona na assunção do progressive rock e alicerçar o seu próprio álbum conceitual, o primeiro de sua carreria e que seria o responsável por laçar as cordas para uma nova escalada rumo ao topo do mundo. Na teoria, a idéia era incontestavelmente brilhante; porém, na prática, seria uma tarefa hercúlea.

Não há como negar: o KISS sempre teve em sua imagem uma porcentagem relevante de seu sucesso. Por óbvio, no início da carreira, a banda soube acolchetar com maestria o marketing com um rock n' roll da melhor qualidade. O problema é que, no meio da montanha russa incontrolável que o grupo havia se transformado, o KISS singrou mais em direção ao "comercial" do que para a "arte" propriamente dita. E pior: o novo público que a banda angariava ao passar do tempo (ao menos no lapso temporal entre 1978 e 1982) não queria nada além do som "rentável" que começava a se formar. Este era o desafio do KISS: construir um disco que fosse comercialmente viável, mas com conteúdo suficiente para não soar pueril e forte o bastante para reaproximar o fiel público de outrora, isto em meio à crises de ego, um súbito desmembramento e a recusa de Frehley em render-se ao rock progressivo.

Foi neste ambiente que surgiu "Music From 'The Elder'": um excelente disco que prova a capacidade técnica de todos (inclusive do recém chegado Eric Carr), mas que, no momento de sua exibição, não foi compreendido por ninguém.

Até hoje, grande parte dos fãs ainda "deserda" "...The Elder" e os críticos mais teimosos o colocam, ao lado de "Carnival of Souls", no rol dos piores trabalhos do KISS, ainda que tal afirmação nao detenha em si nenhum grau de sensatez. Pelo contrário: se pararmos para ouvir o disco com atenção, perceberemos que banda merece - e muito - diversas congratulações, pois ela soube contar muito bem uma história (um tanto quanto sem sentido, na qual um garoto era treinado pelo "Conselho The Elders" para combater o mal) aliada à uma sonoridade bem construída.

Logicamente, era uma idéia praticamente "kamikaze" incluir uma música incidental como "Fanfare" em um disco do KISS. Mas, fora isso, "...The Elder" funciona, e muito bem. "The Oath" abre o disco e engana o ouvinte mais desatento que pensa que o peso de seu riff permeará todo o álbum. Mas, ainda assim, a canção é uma excelente introdução à atmosfera que todas as faixas, em conjunto, desenvolveriam. Impende destacar que a ordem em que as músicas foram dispostas em seu lançamento (e que o leitor poderá verificar ao final deste post) foi imposta pela gravadora, como uma forma do disco soar "mais comercial".

Stanley, no auge de sua forma, alcançou uma linha vocal similar às mais tradicionais peças de ópera, variando sua densidade e tom de sua voz. Em diante, após o clima incidental de "Fanfare", é "Just a Boy" que confirma tal tese. Ainda que a contragosto, Ace Frehley desenhou excelentes linhas melódicas em diversas canções, como a que ora está em foco e também "Dark Light" e "Only You", cuja introdução entrelaça-se ao fim da faixa que a precede.

Outros pontos altos sao a clássica "A World Without Heroes", "I" e "Mr. Blackwell", que trazem para a audição um pouco do KISS que o mundo todo estava acostumado a ouvir.

"...The Elder" estreou nas paradas americanas em 75º lugar, demorando apenas duas semanas para desaparecer da lista, como se observa no histórico da Billboard e na própria biografia da banda.

O KISS sequer ousou divulgar o álbum de modo usual, através de turnê, aparecendo em raras apresentações dubladas em programas na Europa e tocando apenas uma vez ao vivo as canções "The Oath", "A World Without Heroes", "I" e "Mr. Blackwell" no programa Fridays, tamanha foi a decepção que o disco representou.

Por certo, não se poderia cobrar outra postura do público, da crítica e da própria banda na época. Contudo, hoje não há mais razão para torcer o nariz para "... The Elder". Trata-se de um disco com uma musicalidade surpreendente e que continua a oferecer novas descobertas a cada audição. Talvez, ele seja mesmo a maior manifestação artística de uma banda que sempre trilhou sua carreira de braços dados ao marketing e ao clichê. Mas nem por isso o KISS deixa de ser o que sempre foi: uma das melhores e mais quentes bandas do mundo que, apesar dos altos e baixos, sempre ofereceu um espetáculo ao seu público.

Cheers!!!

Faixas:

1. The Oath
2. Fanfare
3. Just a Boy
4. Dark Light
5. Only You
6. Under The Rose
7. A World Without Heroes
8. Mr. Blackwell
9. Escape from the Island
10. Odissey
11. I
12. Finale

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Um comentário:

  1. Muito bom, cara.
    Eu tenho esse album...e é de grande prazer ao ouvidos..
    Abraços

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