quinta-feira, 22 de abril de 2010

1971 - Construção

Chico Buarque é, sem sombra de dúvida, um dos maiores nomes de nossa música. Gênio criativo dotado de uma habilidade ímpar em comandar sua pena (ora irônica, ora melancólica), Chico criou algumas das obras perenes da música popular brasileira. Em "Construção", encontramos um bocado destas pérolas. O quinto disco de Buarque foi lançado em um momento turbulento de nossa história. Enfrentávamos o ápice do regime de exceção e a censura, vigente até então, era apenas um dos muitos pesadelos dos artistas tupiniquins.

Recém chegado de seu exílio na Itália, Chico Buarque pegou todo este caldeirão de sentimentos extremos, adicionou pitadas da bossa nova (resultante da parceria com Toquinho, Vinícius e Jobim) e brindou-nos com este trabalho histórico.

Chico Buarque abre sua "Construção" com a irônica e incisiva "Deus lhe Pague", dotada de versos tristemente sinceros entoados acompanhados de berimbaus, piano e uma percussão interessantíssima. A canção conduz o ouvinte a uma reflexão galopada em batidas similares a de um coração: trata-se de um momento ímpar, que caracteriza uma abertura marcante da obra. "Cotidiano", canção seguinte, quebra inteligentemente a atmosfera, ainda que denote uma severa crítica. Musicalmente, a faixa mantém os mesmo ditames da canção precedente, agregando pausas acertadas durante o seu desenvolver. "Desalento", que completa a "tríade" inicial do disco, apresenta-se como uma típica música oriunda da bossa nova. Composta originalmente em parceria com Vinícius de Moraes, a canção destoa propositalmente dos reclames percebidos nas faixas anteriores, ainda que se possa conjecturar um possível lamento de Buarque no exílio em certos momentos.

"Desalento" abre espaço, ao seu fim, para um dos maiores alicerces poéticos já escritos por Chico Buarque. A letra de "Construção" ainda hoje é uma constante a descobrir, cheia de percepções indiretas e críticas prostradas nas entrelinhas que, quando entendidas, saem das sombras e transformam-se em um tapa na face. Conjugado a este fator, "Construção" também é uma pérola em termos musicais: a batida seca do violão se mescla a manifestações não esperadas de cordas e metais, apoiado em um coro de fundo igualmente bem estruturado pelo grupo MPB-4.

Adiante, "Valsinha" e "Minha História", versão da canção originalmente composta por pelo italiano Lucio Dalla, trazem à baila, uma vez mais, a atmosfera intimista característica de Chico Buarque. Esta última conta história de um menino (que narra toda a canção), um tanto triste, que empurra o ouvinte para um momento silente de importante relevância e reflexão sobre o estado em que o país se encontrava. A comparação do menino da canção com Jesus acolcheta bem a mensagem da canção que, ainda que não escrito pelo punho de Buarque, coaduna com seu estilo e com a proposta do disco, que se encerra com "Acalanto", narrativa igualmente profunda.

Em suma, "Construção" é um momento importantíssimo da carreira de Chico Buarque e, por conseguinte, da própria música do Brasil. Ocorria naquele 1971 um conjunto de fatores que, para muitos, são uma mancha negra em nossa história. Por sorte temos este disco para salvar-nos deste momento nebuloso de nossa história. Ao velho Chico, nosso muito obrigado.

Cheers!!!

Faixas:

1. Deus lhe Pague
2. Cotidiano
3. Desalento
4. Construção
5. Cordão
6. Olha Maria (Amparo)
7. Samba de Orly
8. Valsinha
9. Minha História
10. Acalanto

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4 comentários:

  1. cara, o .rar ta com senha! poderia liberar ae pro pessoal? valew

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  2. Valeu pelo aviso, já já o link estará funcionando. Obrigado pelo alerta!!!

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