sábado, 3 de abril de 2010

1991 - Nevermind

Escrever sobre "Nevermind", nos dias de hoje, é uma tarefa difícil. Não apenas pelas inúmeras resenhas de peso que já foram editadas ou pela relevância do disco em si, mas também pela complexidade de compreender e aplicar na atualidade o impacto e efeitos que o álbum espalhou desde o seu lançamento.

Se em 1991 "Smeels Like Teen Spirit" representou um fenômeno radiofônico sem precedentes, quiçá hoje ele possa evidenciar algo totalmente diverso: um momento de ruptura com o modo de fazer música (em especial, o rock n roll) que vigorava até então.

Ao contrário do momento que permeou a produção de "Bleach", em 1989, a situação do Nirvana quando do registro de "Nevermind" era razoavelmente melhor. Além de contar com um novo regente para as baquetas (obviamente figurado por Dave Grohl), a banda assinara um contrato de gravação com a Geffen, muito embora neste fato não resida um vislumbre peremptório de expectativas. Mas, por certo, evidenciava um rol de oportunidades muito mais extenso e otimizado.

Este quadro, em verdade, apresenta um nítido traço incongruente da personalidade de Kurt Cobain. Apesar de deter um forte apego aos ideais punk, Kurt concebera o Nirvana, desde o início, como um projeto voltado para o sucesso. Em seus diários, Cobain registrava objetivos e metas para o grupo, enquanto confecciova, ao mesmo passo, entrevistas imaginárias e resenhas positivas sobre os álbuns ainda inéditos da banda. Assim, ao mesmo tempo em que abraçava o punk em sua completude, Kurt apontava para a trilha da construção pop esteada pela sinceridade da música independente.

Grande parte das composições que integram "Nevermind" remetem à um período antecedente a gravação das mesmas. Sinal de amplo amadurecimento musical, todas as faixas desenvolvem-se de modo mais simples e objetivo, se comparadas com o trabalho anterior. Ainda que as sessões de gravações de "Nevermind" tenham sido mais ásperas que as de "Bleach" (isto porque, de acordo com a biografia de Cobain, o líder do Nirvana teve dificuldade em gravar as frases de guitarra que permeiam o disco), todas as canções fluem agradavelmente durante a sua audição.

Tal fato se percebe já no primeiro segundo de "Smells Like Teen Spirit". Em verdade, o riff desta canção é a verdadeira abertura dos portões da musicalidade dos anos 90, que romperia com tudo o que havia sido feito anteriormente. De tão executada nas rádios, o Nirvana chegou a excluí-la de seu set list durante um bom tempo.

Mas não se pode negar que a faixa que abre "Nevermind" abre também todo um novo modo de se fazer música. Na sequência, "In Bloom" reverbera todo o sarcasmo de Cobain, isto mesclado com uma construção musical interessantíssima e pesada. Em "Come as You Are", encontramos o nosso primeiro ponto de reflexão. A letra é extremamente densa e forte, acompanhada por um riff que, de tão simples, chega a soar um tanto complexo. "Come as You Are" poderia ser tocada em uma rádio punk, em uma rádio pop ou em churrasco entre amigos: durante os anos 90, foi ela a mais reproduzida em diversas vertentes radiofônicas.

"Breed" também aposta no viés poético e lunático de Cobain para captar o ouvinte. O refrão, se abstraído e refletido com atenção, demonstra a problemática relação do frontman do Nirvana com sua família. É, em verdade, uma lição de vida: "Even if you have / Even if you need / I don't mean to stare / We don't have to breed / We can plant a house / We can build a tree / I don't even care / We could have all three / She said" (Mesmo que você tenha aquilo/ Mesmo que você precise / Eu não dou a mínima / Nós não temos que reproduzir / Podemos plantar uma casa / Podemos construir uma árvore / Eu não ligo mesmo / Poderíamos ter todos os três [casa, árvore, filhos] / Ela disse)"

Na verdade, muitos consideram estas quatro canções iniciais os pilares eternos que sustentam "Nevermind", mas não podemos olvidar das demais canções. Como não perceber o desabafo sincero e sôfrego de "Lithium" e "Something In the Way", ambas faixas contruídas com um alicerce musical perene? Ou ainda "Territorial Pissings", "Drain You", "On a Plain", "Polly", "Stay Away" e "Lounge Act"?

Todas canções são especiais. Além de concretizações sinceras, são músicas que movimentaram a cena musical de todo o mundo, desde os Estados Unidos até o Velho Mundo. Com estas canções, a Terra não conheceu apenas um dos melhores grupos já vistos, mas também o (provável) ícone eterno que, em uma geração, sintetizou todo o anseio de quase cinco décadas de rock n roll. Bob Dylan, no auge de sua nobreza, quando ouviu "Polly" na sala do editor da Rolling Stone, Michael Lydon, apenas disse: "Esse garoto tem coragem." Tantos outros amariam ou odiariam Cobain, mas Dylan foi perfeito em sua constatação: Kurt e o Nirvana eram corajosos, e ninguém pode dizer o contrário sem correr o risco de errar feio.

Até hoje, "Nevermind" é considerado por muitos estudiosos dedicados à música e ao rock n roll como o segundo melhor disco da história da humanidade, apenas superado por "Revolver", confeccionado pelos quatro rapazer de Liverpool. No entanto, não há uma certeza quanto a isso. O Nirvana é uma banda amada por muitos e literalmente odiada por tantos outros. Todavia, acreditamos que, após uma reflexão, devemos nos curvar a "Nevermind" com deferência, afinal, ele foi o álbum que destronou "Dangerous", de Michael Jackson, do topo das paradas, e lançou-se sobre os dois "Use Your Illusions" do Guns e o "Black Album" do Metallica, ultrpassando-os em vendagem e, em certo ponto, em qualidade artística.

Se o Nirvana é eterno, "Nevermind" é o primeiro degrau desta escadaria, degrau este que deve ouvido por todos com respeito e zelo, seja qual for a posição ouvinte sobre a banda. Muito da musicalidade dos anos 90 deve a este álbum o seu crédito e, todos nós, apaixonados por música, esperamos ansiosa e ilusoriamente por um novo "Nevermind". Afinal, ele é satisfação e intensidade do início ao fim.

Cheers!!!

Faixas:

1. Smells Like Teen Spirit
2. In Bloom
3. Come As You Are
4. Breed
5. Lithium
6. Polly
7. Territorial Pissings
8. Drain You
9. Loung Act
10. Stay Away
11. On a Plain
12. Something in the Way

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Um comentário:

  1. Sem dúvida, "Nevermind" é a alma dos anos 90. O nirvana é a essência do rock primitivo. As canções nos remetem ao ápice da reflexão. Sempre será um álbum histórico.

    Valeu pela postagem.

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