sábado, 24 de abril de 2010

23/04/10 - Pão de Hamburguer & Blindagem

Diziam os antigos mestres Incas que, quando um acontecimento ímpar está prestes a ocorrer, todos os elementos da natureza ao redor deste mesmo acontecimento tendem a se intensificar, tal qual a luz do Sol em um quente verão. Ainda que em paradoxo contrário, Curitiba demonstrou ser verdade este antigo mito Inca: no dia em que duas das melhores bandas do Paraná prestariam uma justa homenagem ao eterno Ivo Rodrigues, a cidade amanheceu castigada pela chuva, o frio sentou praça e sentenciou que todos poderiam fazer tudo, menos sair de casa. Mas, como nem todas as coisas se perdem na água, estes mesmos elementos da natureza resolveram dar uma trégua gradativa enquanto os ponteiros do relógio se aproximavam da hora da apresentação.

Quando o Pão de Hamburguer botou o pé no palco, os primeiros minutos de 24 de abril já haviam decorrido. E, exatamente no mesmo momento em que o primeiro ressoar de notas de "Oh Pai" escapou das mãos de Leonardo Bokermann para os amplificadores e para o público, o relógio (que antes fizera a chuva e o frio se encolherem) parou: era como se a intensidade da música reverberada pelo grupo abstraísse toda a platéia e a transportasse para um mundo próprio, onde a batuta regente era balanceada ao ar pelo próprio Pão. Apenas quem não quis aceitar o convite da banda para singrar por esse "novo mundo" é que saiu perdendo; aos demais, alegria e satisfação são termos próximos para exemplificar e evidenciar este momento de exaltação. Em um repertório de aproximadamente 13 canções, a banda alavancou faixas constantes em seu "Álbum 2009" (disponível para download nesta mesma seção), acrescidas de certos regalos e mimos, como canções inéditas (Jonas, por exemplo) e músicas de bandas referenciais ao grupo.


Bons momentos não faltaram. Em "Princesinha do Tio", a platéia dançou e pulou como se pisasse em brasa; quando "Ontem e Hoje" surgiu, todos puderam balançar a cabeça e, ao mesmo tempo, refletir com as palavras cantadas por Gabriel. Toda a banda (isto em análise individual) ofereceu ao público a oportunidade de ver e ouvir um bom show, regado de músicas da melhor qualidade: "Joelito" conduziu muito bem suas seis cordas, assim como Leo e Gabriel o fizeram, mostrando que "los tres amigos" sabem muito bem como combinar os melhores elementos de três guitarras reverberadas ao mesmo tempo. Na cozinha, Brunno (sempre com o pé direito em movimento) acolchetou bem as linhas de baixo, enquanto Rennan bem mostrava que baquetas também podem ser batutas na mão de maestros de verdade.

O ápice certamente se evidenciou em "Sr. Dalí", canção que traz a miríade de influências do Pão: Who, Hendrix e Mutantes estavam no palco com eles. Enquanto a banda crescia on stage, a platéia subia igualmente o volume e, no momento em que a canção chegou ao seu termo, todos puderam colocar bruscamente os pés no chão: era a gravidade que havia voltado e, com ela, os ponteiros do relógio retornaram igualmente a caminhar. Lá no alto, com sua "Gaivota" e trajando sua roupa de "Marinheiro", o velho Ivo certamente dizia com aquela voz e riso inconfundíveis: "obrrrigado".

Ao deixar o palco, o Pão passou o comando da festa aos eternos veteranos do Blindagem que, apoiados por Rodrigo Vivaz, fecharam as homenagens à Ivo Rodrigues. O público presente no Blood Rock Bar pode rememorar eternas pérolas da banda, cantando com Rodrigo cada verso da poética obra de Ivo e Leminski. Muito embora o relógio não tivesse parado novamente, o Blindagem ofereceu (como sempre) a garantia de bons momentos sustentados pelo rock n roll. Ainda que a ausência de Ivo seja uma "ferida" recentíssima e aberta no âmago de cada um, a banda trocou acertadamente a tristeza pela alegria e deu à platéia (e a Ivo, por igual) um fim de noite memorável.

Seja com a voz, com a marcação da sola do pé ou da palma da mão, todos os presentes seguiram o Blindagem por suas canções, dançando, cantando e se emocionando como em "Sou Legal, Eu Sei", "Loba da Estepe" e "Dias Incertos". Paulo Teixeira, nosso querido Keith Richards, demonstrou a apresentação impecável de sempre; Juk, por seu turno, levou com maestria suas quatro cordas enquanto Rodrigo Vivaz fez as vezes de Ivo, nunca tentando substituí-lo, mas sim homenageando-o e ressaltando a todo momento a grande importância desta figura sigular à música e cultura paranaense.

Enquanto a madrugada avançava, a apresentação chegou ao fim. Todos os presentes, desde aqueles que aceitaram flutuar com o Pão de Hamburguer e os que colocaram os pés no solo com o Blindagem, prestaram uma honrada homenagem à Ivo Rodrigues. Somado à isso, tiveram a oportunidade de presenciar e apreciar a performance de duas excelentes bandas que aliaram o impulso e o anseio pueril da juventude com a aguerrida postura de altivez e o pulso firme da experiência. Para quem queria descobrir "qual a diferença entre ontem e hoje", como canta o Pão, pode descobrí-la nesta junção de características do passado com o presente que, mesmo sob o manto de "certas luas e dias incertos", como brada o Blindagem, nos quer ensinar que o bom mesmo é saltar em busca de correta satisfação e prazer, que só a música é capaz de prover. Esta é a lição de Ivo e foi isto que todos aprenderam naquela noite. Ao Ivo, ao Pão e ao Blindagem, o nosso sincero obrigado.

4 comentários:

  1. Realmente, tivemos uma grandessíssima noite! E o grande ápice da festa, foi ver o público em sintonia com as harmonias sonoras, desenvolvidas por ambos "on stage" e "on downstage"! Pra mim, os elementos da natureza se intensificaram ali, durante as apresentações!!! Uma brilhante homenagem e um eterno salve à Ivo!!!

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  2. Foi porrada, muito massa foi essa sexta

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