segunda-feira, 3 de maio de 2010

2009/2010 - O Trilho

Curitiba sempre foi (re)conhecida por deter uma identidade cultural solidificada, que oportuniza aos artistas locais o espaço mínimo necessário para que sua arte seja alicerçada e vista pelas pessoas: em solo curitibano (isto sob olhar alheio) tudo florece, e todos percebem tais frutos. Embora esta perspectiva seja otimista, ela é, infelizmente, falsa em quase a sua totalidade.


No que tange a cena musical (em especial o cenário roqueiro, historicamente mais vibrante que os demais), o que se vê (e ouve) é um punhado de bandas que constroem um excelente material próprio lutando para galgar um espaço de atuação; enquanto isso, Curitiba (que anteriormente fora a “cidade-cultura”) abarca em seu seio a reprodução em lugar da produção: enquanto a programação cover dita a toada das canções, as poucas bandas de som próprio com lugar garantido são as mesmas de 5, 6 ou 15 anos atrás, sempre tocando as mesmas coisas, nos mesmos dias da semana, nos mesmos lugares, para as mesmas pessoas.


Parece que os trilhos que possibilitariam o passeio do trem da criatividade e otimismo musical pela cidade começa a dar sinais de anacronismo e esfacelamento. Coincidência ou não, a chance de recuperação destes trilhos pode residir em uma destas bandas de excelente criatividade e inteligência que, hoje, ainda caminham sobre brasa para firmar-se na cena musical


É essa a sensação que sentimos quando ouvimos as canções de O Trilho, banda curitibana que desde 2009 vem trabalhando na consolidação de um projeto que, muito embora seja simples à primeira vista, reveste-se em uma importância e relevância ímpares: fazer rock n’ roll em um formato salutar, intimista e extasiante.


Quando ouvimos os primeiros estampidos secos de bateria em “(Esse Rock) Foi Quem Fez” percebemos tal realidade. A canção se desenvolve como os mestres do passado o fariam: inicialmente a guitarra de André Prokofiev surge em um riff conciso e vibrante que, aos poucos, convida os demais elementos musicais a envolver-se em um arrebatador motim sonoro. Porém, a toada da canção se consolida de fato quando a voz precisa de Fabiola Lopes passa a ordenar a criação da atmosfera vibrante da canção, cuja letra é, literalmente, um ensinamento de fidelidade aos ideais e ao rock n’ roll.

Esse é o clima que permeia os versos da canção: a instrumentalidade dos músicos se entrelaçam perfeitamente em uma salutar onda de som e cores. André Somma, também responsável pelas seis cordas, acolcheta muito bem a densa sonoridade da faixa em questão. Jean Maia (que deixou a banda há pouco em direção a Cuba) preenche as lacunas com o baixo, preparando o terreno para a explosão deflagrada pelo refrão que, extremamente vibrante, permanece martelando em nossa cabeça mesmo após o fim da canção. De fato, “esse rock” foi quem fez a cabeça do Trilho.


Os solos presentes na canção fazem, igualmente, o queixo do ouvinte sentir os efeitos da gravidade: conduzidos a galope pelo “beat” marcante de Guilherme Richter, João Gaspari faz de gato e sapato o seu teclado, enquanto André retira das seis cordas um momento de pura inspiração.


Quanto a canção se encerra, marcada novamente pelo emblemático refrão, sentimos aquele prazeroso cansaço de quem um pulou durante um show inteiro: a diferença é que, com O Trilho, ainda estamos na primeira canção. É neste clima que “Dose Pequena” vem a abrandar a chama criada por “(Esse Rock) Foi Quem Fez”, ainda que temporariamente.


A faixa se inicia com uma interessante frase de guitarra que, aos poucos, é preenchida com precisão pelas quatro cordas do ex-integrante Jean e pelas quase silentes teclas de Gaspari. Acompanhando as pausas dos versos entoados por Fabiola, André Prokofiev alça slides parafraseando os riffs entoados por Somma, prova da inconfundível e insofismável criatividade do grupo. Lentamente, a “Dose Pequena” que Fabiola tanto reclama vai tomando corpo e dimensão imensos, que não cabem na própria canção.


Tão isso é verdade que, em um certo momento, quando a banda parece ter contido o “Mr. Hide” que pulsava incessantemente durante a canção, ela se deflagra em uma brusca e interessante alteração de rítmo e compasso que, denotando caráter acelerado, traz à vida novamente até o mais sepulcro e incrédulo indivíduo. Os solos são, à exemplo da canção precedente, dotados de uma singular inspiração que consegue aliar, ao mesmo passo, o feeling com o apreço técnico necessário, que garantem ao ouvinte uma oportunidade vivaz de satisfação.


Ao fim destas duas canções, é impossível conter a alçada de um sorriso no rosto, ainda que breve e singelo. E, assim, voltamos a realidade trazida nos primeiros parágrafos deste texto: O Trilho, ainda que seja indubitavelmente uma das melhores e mais criativas bandas advindas desta “nova” geração de grupos curitibanos, tem que frequentemente sacar a espada e desbravar um espaço neste círculo quase fechado no qual se transformou o cenário local. Prova disto é o comprimido número de canções que a banda consegue expor, ainda que possua uma extensa relação de excelentes músicas finalizadas, esperando uma brecha para serem reverberadas em estúdio com o objetivo de arrematar sua produção.


No entanto, certamente os mesmos ventos que fizeram de André Canetta o novo artíficie das quatro cordas renovarão também o espírito do grupo. Afinal, “esse rock” não fez somente a cabeça do Trilho, fez a cabeça de todos nós. E justamente por isso que este grupo se transformou em uma peça fundamental para recolocar a cena musical da Curitiba na trilha correta.


Set List:


1. (Esse Rock) Foi Quem Fez

2. Dose Pequena


CLIQUE NA IMAGEM P/ FAZER O DOWNLOAD:











Veja também:

O Trilho no Myspace: www.myspace.com/otrilho

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