segunda-feira, 17 de maio de 2010

Ronnie James Dio: A Eterna Voz do Rock n' Roll


O tempo é um mecanismo complicado e curioso. Nele, diversas obras se desdobram no espaço, e com ele alcançamos aquilo que denominamos de "experiência", que é tão cara para nós, servindo-nos de esteio para o nosso amadurecimento. Mas, ao mesmo tempo em que ele, o tempo, nos possibilita alcançar e conhecer tantas coisas, também não faz distinção sobre o que ou quem irá sentir os seus efeitos: com esse mesmo tempo que tanto aprendemos, nós também perecemos gradativamente, pouco a pouco, dia a dia. E assim, assistimos aos a derrota dos ídolos que julgávamos eternos para o tempo. É como se suas estátuas, antes talhadas em rijas pedras, se tornassem areia em um curto lastro temporal e, empurrados pelo vento, fossem levados a todos os cantos do nosso mundo. Em 16 de maio de 2010, perdemos mais um ídolo que, antes, julgávamos imortal: Ronnie James Dio. E, em parte, os pressupostos anteriores são verdadeiros: podemos ter perdido Dio para o tempo, mas jamais perderemos a sua obra e a sua voz.

Desde meados da década de 60, quando Dio começou a delinear o projeto musical que culminaria com o primeiro e homônimo disco do Elf, em 1972, ficou claro que seu nome ficaria para sempre insculpido na história da música. Com o Elf, Dio flertou com o rock n' roll e com as primeiras fusões de tal ritmo com o jazz, elementos que foram aprimorados com o passar do tempo (sempre ele) e foram devidamente registrados em "Carolina County Ball", de 1974, e o excelente "Trying to Burn the Sun", de 1975. Com o Elf, Dio começou a mostrar sua voz e sua força para mundo, e mudou o curso da vida de algumas pessoas, como a de um pequeno garoto de 11 anos, durante um show de abertura para o Deep Purple na Dinamarca, que, após a apresentação do Elf, teve certeza que queria viver de música. No dia 16/05, 35 anos após esse show na Dinamarca, ao saber da morte de seu ídolo, o hoje senhor Lars Ulrich chorou como se tivesse os mesmos 11 anos de idade, quando conheceu Dio.

Foi desta mesma turnê que se engendrou, para Ritchie Blackmore, a certeza de que Dio seria seu auxiliar na concretização do mito que hoje o Rainbow representa, e que cresce cada vez mais com o tempo: todos os dias, seja através da fase da banda com Joe Lynn Turner ou da própria obra de Dio, o Rainbow ganha novos ouvintes e seguidores. Afinal, foi com o Rainbow que Ronnie James Dio bradou aos quatro cantos do mundo a mensagem que, mesmo breve, sintetiza o sentimento de todos que nos rendemos ao rock como uma forma de pensar, agir e viver: "Long Live Rock n' Roll", hino eternizado na voz de Dio, é a prova da perenidade deste estilo e de todos aqueles que se cobrem com seu manto.

Do Rainbow, Dio seguiu em frente para manter viva a lenda do Black Sabbath, que após os desgastes havidos com Ozzy Osbourne, precisava ser lançado novamente ao Sol. Com o Sabbath,  Dio lapidou as pérolas inquebrantáveis "Heaven and Hell" (1980), "Mob Rules" (1981) e o polêmico "Live Evil" (1982), que decretou sua saída do grupo, retornando apenas em 1992 para gravar e brindar o público com "Dehumanizer". Durante a mesma década de 80, Dio deu início a construção de seu trabalho solo, firmando-se definitivamente como ícone e referência insofismável do hard rock e do heavy metal.

É importante ter em mente o trajeto percorrido por Dio, justamente para concretizar sua importância para a música e para o público que, há mais de três décadas, o segue incessantemene. Com sua triste passagem no último domingo, percebemos a constatação de um triste fato: tem-se chegado o momento de dizermos adeus aos nossos ídolos, àqueles que nos motivaram a estudar e a entrar cada vez mais no mundo do rock n' roll. E, talvez pior do que isso: constatamos também que, a cada dia, diminuem os possíveis candidatos a suceder (sem nunca tomar o lugar) nomes como o de Dio. É como se caminhássemos ao vazio: nada de novo e interessante se constrói hoje. Vivemos em um eterno culto à memória e ao passado, buscandos através do tempo a força daqueles que já fizeram a história e, ainda hoje, continuam a significar muito à nós.

Por essas razões, quando pensamos em Ronnie James Dio, não podemos desvinculá-lo do tempo. Foi através dele que marcou-se o seu nome na história de todos nós que, no dia de hoje, baixamos os olhos mareados pela tristeza de perder uma referência. Dio não foi apenas uma das mais poderosas vozes do rock, foi, acima de tudo, um sujeito amplamente carismático que muito nos ensinou, desde o símbolo máximo do "chifre" com as mãos, até a perseverança de perseguir seus sonhos. Apesar de Dio ter perdido a batalha contra o tempo e contra a doença que o aplacou, é nosso dever utilizar um desses inimigos - o tempo - como ferramenta inquebrantável para perpetrar na memória de todos a importância da obra deste incrível artista, que tanto fez pela música de modo geral. A consternação de um mundo todo é prova desta missão: façamos a voz de Dio ecoar em todo o tempo, para sempre.

Siga em paz velho mestre! Agora é nossa vez de cantarmos por ti!

2 comentários:

  1. Parabéns pelo maravilhoso texto.

    Tenhamos agora a certeza de que Dio ainda vive. Faleceu no último domingo, mas sua voz ecoará no TEMPO por toda a eternidade.

    Long Live Rock and Roll!!

    \m/

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  2. Caro Rafael,

    Antes de mais nada, parabéns pelo belo texto. Sou obrigado a concordar com você que o tempo, verdadeiramente, é o senhor de tudo. O tempo que nos dá e que nos tira. O velho Dio foi uma referência - não só musical, como você bem colocou - para muitos de nós.

    Infelizmente já havia feito a mesma constatação que você: não há ninguém ou nada de novo e interessante que possa suceder nomes como o do baixinho e dos outros jovens senhores que nos ensinaram muito mais do que somente música.

    Fica a certeza de que a arte, por não ser palpável, e por isso não suscetível às marcas do tempo, fará de pessoas como Dio gênios eternos.

    Mais uma vez, parabéns pelo texto. Peço agora licença para voltar a ouvir meu Holy Diver...

    Abraço,

    Gabriel Gonçalves

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