terça-feira, 20 de julho de 2010

1969 - In A Silent Way

A década de 60 representa um solo fértil para diversas vertentes musicais. Do rock ao jazz, inúmeras foram as construções musicais que romperam seu casulo para alçar novos horizontes. Assim, diversas fusões e inovações puderam ser testemunhadas, principalmente na segunda metade daquela década. Miles Davis é um dos expoentes que confirmam essa premissa e, de certa forma, "In A Silent Way", último álbum do trompetista lançado sob a brilhante luz dos anos 60, é uma amostra das resultantes obtidas pelo músico em suas experiências no jazz e em outros terrenos.

Primeiramente, "In A Silent Way" é diferente de quase tudo que Miles fez em sua carreira até 1969. A partir de seu último registro agregado às raízes do jazz (o "acústico" "Nefertiti", de 1968), Davis "eletrificou" sua música com pianos, orgãos e guitarras elétricas. Assim, juntamente com o jazz fusion visto em "Miles in the Sky" e "Filles de Kilimanjaro", de 1968 e 1969, respectivamente, "In A Silent Way" completa o rol de discos que prepararam o terreno para o salto que o trompetista daria a partir de 1970, com "Bitches Brew". No entanto, "In A Silent Way" é, provavelmente, o álbum mais especial da tríade "fusion & eletric" produzida entre 1968 e 1969.

Isto se deve, inicialmente, pela estruturação do disco. "In A Silent Way" contou com a produção de Teo Macero e sustentou-se em uma única sessão de gravação, realizada em 18 de fevereiro de 1969 no Studio B da CBS Records de Nova Iorque. O álbum é composto apenas por duas peças, de quase 20 minutos cada: "Shhh/Peaceful" e "In A Silent Way/It's About That Time". Isto se deve à influência de Macero, que incentivou Miles a delinear as canções do álbum no formato sonata, visto na música clássica.

A sonata se caracteriza por três momentos ou movimentos: exposição (que contém o embrião e a base da canção), desenvolvimento (que traz o expoente criativo da música) e recapitulação (que retorna à exposição para encerrar a faixa). Desta forma, as duas peças de "In A Silent Way" apresentam estes três movimentos (ou momentos), que trocam informações entre si e apresentam um interessantíssimo resultado. Para se ter uma idéia da complexidade que essa formatação é capaz de criar, os seis minutos finais da primeira peça, "Shhh/Peaceful", são exatamente iguais aos seis minutos de seu início. No entanto, nenhuma colagem ou edição foi utilizada: a sessão foi gravada "ao vivo", e os músicos literamente caminharam pelas trilhas propostas pela sonata. É como se cada canção tivesse o seu nascimento, crescimento e morte determinados pelos compassos de Davis. Apesar de aparentemente maçante, "In A Silent Way" é de uma sonoridade ímpar, capaz de ditar diversos ritmos e compasso em um mesmo ambiente. Por certo, a audição do álbum é mais satisfatória em seu formato original de vinil que, durante a pausa para troca de lados, permite que o ouvinte absorva inteiramente uma peça antes do início da seguinte. Mas, mesmo assim, em forma digital, "In A Silent Way" continua a ser um espetáculo.

Somente por estes fatos já é possível perceber que álbum mostra-se um tanto complexo, principalmente para os fãs de jazz de 1968-69, que não entenderam nada quando o disco foi lançado, em 30 de julho de 1969, há quase 41 anos, portanto. Todavia, o álbum vai além desta curiosa formatação. Apesar de ser um álbum "elétrico", que contou com um grande time de músicos (como John McLaughlin na guitarra, Chick Corea e Herbie Hancock nos pianos elétricos, o lendário Wayne Shorter no sax soprano, Dave Holland no double bass e Tony Williams na bateria), "In A Silent Way", como o próprio título sugero, é predominado pela manifestação do silêncio em contraponto à construção musical de Davis. Em diversos momentos essa perspectiva torna-se real: é como se, em ambas as peças, o ouvite viajasse com Miles e sua trupê por um universo de sentimentos e cores que se manifestam a partir da silente trilha musical da sonata.

Sem qualquer exagero, "In A Silent Way" pode ser elevado ao status de uma das masterpieces do jazz e do próprio Miles, como "Kind of Blue" e "Bitches Brew". Afinal, foi do silêncio que o álbum inaugural de Davis, na década de 70 ("Bitches Brew") surgiu, e possibilitou uma série de modificações em sua carreira e nos rumos do próprio jazz. É hora de deixar o silêncio falar, e "In A Silent Way" é a prova incontestável de que ele, o silêncio, é um dos meios mais profícuos para a manifestação artística.

Cheers!!!

Set List:

1. Shhh / Peaceful
    1.1 Shhh
    1.2 Peaceful
    1.3 Shhh

2. In A Silent Way / It's About That Time
    2.1 In A Silent Way
    2.2 It's About That Time
    2.3 In A Silent Way

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Um comentário:

  1. Parabéns pelo texto, explica muito bem o contexto em que estva Miles quando fez essa obra prima e provavelmente o meu disco preferido dele. Mas só uma ressalva: os seis minutos finais de "Shhh/Peaceful" SÃO OS MESMOS do começo da música. Justamente isso é um dos fatores que deixa o disco tão incrível e enigmático. Passei anos ouvindo o cd e tentando comparar de memória as 2 partes para descobrir se eram a mesma execução ou não. Ontem coloquei a música num programa de edição de som, cortei a parte final e sobrepus ao início: é a mesa gravação. Inclusive devido a instabilidade dos gravadores de fita (ele nunca vai tocar uma fita exatamente na mesma velocidade 2 vezes, até porque a fita se "espicha"), depois de um certo tempo começa a rolar uma defasagem entre os 2 audios, e eles lentamente vão se separando um do outro. Mas definitivamente, é a mesma gravação, que Teo Macero teve a idéia de editar como você explicou. Ele é um grande responsável pela sonoridade e o impacto que esses discos do Miles tiveram. Um grande abraço e parabéns pelo blog.

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