segunda-feira, 16 de agosto de 2010

"Iron Maiden" e "The Final Frontier": Dois Extremos de uma Mesma Linha



Em 16 de agosto de 2010, "The Final Frontier", 15º álbum de estúdio do Iron Maiden, foi oficialmente lançado em grande parte do mundo. Considerado por muitos como o possível capítulo final de sua história, como o próprio título sugere, "The Final Frontier" representava, antes de seu lançamento, a última ponta de esperança daqueles que apostavam no regresso da banda às suas origens, justamente após 30 anos, 4 meses e 2 dias do início oficial desta mesma história, vista com o lançamento do primeiro e homônimo disco da Donzela em 1980. Mas, ainda que pertençam ao mesmo "signo", "Iron Maiden" e "The Final Frontier" são distintos entre si, não apenas pelo tempo que os separa, mas principalmente pela sua formatação distinta. De fato, ambos os discos são dois densos extremos insculpidos em uma mesma linha, e que deixam transparecer uma mensagem totalmente distinta entre si.

Nestes 30 anos, o Iron Maiden percorreu uma longa estrada, que consolidou o grupo não apenas como um dos maiores nomes do heavy metal, mas também transformou o grupo em uma espécie de símbolo, próximo à uma doutrina ou mandamento sacro. Com o mascote Eddie à frente, uma orda de seguidores com camisas pretas e chifres nas mãos se formou, não apenas para seguir a banda, mas também (e talvez até acima de tudo) cultuá-la. É uma espécie de devoção que apenas uma desinência musical tão singular como o heavy metal seria capaz de construir e, até mesmo, consolidar, ainda que, por lógica, o Iron Maiden seja "o" Iron Maiden, acima de tudo, por sua competência.

Mas, nestes últimos anos, o Maiden assistiu uma espécie de "ruptura" em sua família, como muitos gostam (com certo exagero) de afirmar. De um lado, descansam aqueles que acompanham e aprovam as mudanças progressivas adotadas por Harris e cia.; de outro, bradam e reclamam aqueles apegados à bela e singular sequência de trabalho dos golden years, quando a banda, em sua visão, ainda era a pura expressão do heavy metal, capaz de fazer cabeças bater para a eternidade. Não é apenas a mudança de som que é criticada, mas também, a nova postura da banda, mais "leve" que o de costume. Serão todas estas críticas sustentadas pelo bom senso?

Não há como negar que, de fato, mudanças houveram, e muitas. A sonoridade do Maiden, pelo curso natural do tempo, já não é mais a mesma: ela amadureceu e evoluiu guiada provavelmente pelas inflências do grupo, uma lógica natural que fã nenhum, por mais xiita que seja, pode refutar. Ainda que seja um tanto arriscado utilizar o primeiro disco da Donzela para avaliar criticamente o recente "The Final Frontier", é quase irresistível fazer a audição de "Iron Maiden", de 1980 (ou do próprio "The Number of the Beast", de 1982, se o parâmetro utilizado for Bruce Dickinson) seguido deste recém lançado álbum. De "Prowler", faixa de abertura do primeiro disco, à "Satellite 15... The Final Frontier", existe uma grandeza universal a ser descoberta.

A introdução progressiva de "Satellite 15... The Final Frontier", guiada pela batida tribal construída por Nicko (similar a muitas passagens vistas no Angra) em nada lembra a objetividade seca de "Prowler", incisiva como um soco na boca do estômago. Na verdade, a canção de abertura de "The Final Frontier" não é "uma" canção, mas sim "duas": "Satellite 15..." cria uma atmosfera caótica introdutória, com guitarras que se embaralham na condução de McBrain, até a apresentação de Bruce, que atesta a progressividade que espera pelo ouvinte. Essa construção de caos dura 4:25 minutos, sucedidos por um breve silêncio antes da explosão revigorante de "...The Final Frontier", calcada em uma linha próxima ao hard rock sem muitas alterações. Sem muitas dúvidas,"Satellite 15... The Final Frontier" é, de longe, a coisa mais diferente que o Iron Maiden já fez.

As canções seguintes, "El Dorado", "Mother of Mercy" e"Coming Home" caminham pela mesma trilha progressiva, cada uma com seu jeito: "El Dorado" aproveita o peso da canção precedente para criar mais uma porrada sonora; "Mother of Mercy" e "Coming Home", um pouco contidas em suas essências, também apresentam uma construção musical interessante, acrescida pela qualidade de ambas as letras, inteligentes e criativas. Aliás, essas duas preocupações são observadas com excesso nesta nova "fase" do Iron Maiden, potencializada com o retorno de Dickinson e Smith, mas também percebida, com menor volume, nos álbuns "The X Factor" e "Virtual XI": gradativamente, as canções passaram a ser muito mais lapidadas em termos musicais, seja em complexidade ou simplesmente técnica. Assim também o foi com as letras, que deixaram de ser moldadas apenas com o objetivo de criar refrões capazes de fazer um estádio inteiro cantar, mas também, em transmitir uma mensagem concreta, ao mesmo tempo em que se condensa com a musicalidade da canção.

"The Talisman" e "When the Wild Wind Blows", canções deste último disco, são prova disso. Ambas apresentam sinais de extrema lapidação musical, ainda que a fórmula nelas contida seja conhecida por quem acompanha o Maiden de hoje: uma intro cativante seguida de um galope pesado que guia a subsequente construção musical da faixa. As letras, no entanto, apresentam uma certa divergência entre si: "The Talisman" aposta na fómula "contador de história" para desenhar um mundo interessante, ao passo que "When the Wild Wind Blows" aproxima-se de um desabafo inerente à latismável condição atual do mundo para convidar o ouvinte para um passeio em seu universo interior. A progressividade também esta presente nestas duas faixas: a cada vez mais o Maiden se aproxima de bandas como Dream Theater e, até certo ponto, Rush, como consequência lógica desse apego maior ao formato e acabamento das canções. É como se McBrain, Harris, Gers, Murray, Smith e o próprio Dickinson tentassem extrair o máximo que as canções podem oferecer.

E também é fato: esse queda parnasiana pela forma bem acabada percebidas nas novas músicas não é vista (pelo menos não com a mesma intensidade) em discos como "Iron Maiden" e"Killers". Com exceção de "Phantom of the Opera", "Remember Tomorrow" e "Transylvania", o restante do álbum de estréia da Donzela possui uma série de arestas a serem aparadas. E, talvez, esse seja o seu maior atrativo até hoje: um som despojado, direto, vibrante e intenso. Sim, de fato, as faixas que constroem "Brave New World" e uma parte de "Dance of Death" e "A Matter of Life and Death" proporcionam momentos interessantes ao ouvinte. Mas, na maioria dos casos, essas mesmas canções levaram um certo tempo para serem totalmente digeridas, em especial no caso de "Dance of Death" e "A Matter of Life and Death". Afinal, como se pode esperar que o ouvinte sinta a mesma energia vibrante vista em "Charlotte the Harlot" e "Sanctuary" ao ouvir "For The Greater Good of God" e "Brighter Than a Thousand Suns"? Não é dizer que uma coisa é melhor que a outra: todas são excelentes canções. Mas são excessivamente diferentes entre si.

Com as canções de "The Final Frontier" provavelmente ocorrerá algo similar, mas com maior rapidez. Por ser mais leve e otimista se comparado com "A Matter of Life and Death", o 15º disco da Donzela é compreendido, em sua grande parte, com facilidade. O que não quer dizer que o Maiden não se perca nessa trilha progressiva que acabou por escolher. "Isle of Avalon", sexta canção deste último disco, atesta bem essa premissa. Apesar de apresentar a mesma forma vista em grande parte do recente material do grupo (intro leve e criativa, galope pesado, desenvolvimento de solos e volta à intro), a canção beira um certo exagero que não combina muito com a essência do grupo, se é que podemos compreender isso. Não fosse o brilhantismo de Adrian Smith em colocar solos excelentes (calcados em tappings e passagens interessantes) por sobre riffs truncados e complicados, "Isle of Avalon" seria, a partir da décima audição, pouco mais do que um cansativo épico de 9 minutos, que o próprio Iron Maiden não conseguiria criar em 1980 nem mesmo se juntasse, em uma só faixa, "Running Free", "Strange World" e "Sanctuary".

No fim das contas, percebemos que "Iron Maiden" e "The Final Frontier" são como duas faces de uma mesma moeda, e desta definição excluímos qualquer tentativa de clichê. A banda vive, hoje, um outro momento, onde a vontade de explorar novos caminhos e construir uma sonoridade progressivamente mais lapidada impera sobre a latente vontade de guiar-se pelos velhos nortes dos anos 80, por mais atrativos e interessantes que eles sejam. Não havia como o Iron Maiden continuar a fazer o mesmo som de "Powerslave" ou "Somewhere in Time" com qualidade o suficiente para estimular o público a ouvir suas "novas" canções, porque, simplesmente, elas não seriam novas. Parece que, até hoje, o AC/DC é a única banda capaz de atravessar quase meio século apostando nas mesmas cartas e ainda permanecer brilhante como a 30 anos atrás.

Assim, podemos até tentar indicar qual disco do Maiden que poderia figurar com honra como "coroa" desta moeda. Mas seria injusto tratar tanto "Iron Maiden" como "The Final Frontier" desta maneira: são produtos das (quase) mesmas mãos; mas, ainda são, são totalmente opostos. Fato é que o Maiden  não voltará ao passado, nem mesmo nós. É momento de compreender esse novo caminho, que certamente não é perfeito, mas, com segurança, é muito melhor do que qualquer repetição simples. Se isso é "cara" ou "coroa", creio que somente o tempo poderá dizer.

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