quinta-feira, 21 de outubro de 2010

08/10/2010 - O Trilho (Show Acústico Mundo Livre FM)



Antes de mergulhar na apreciação daquela que pode ser considerada (sem tropeçar em exageros) como uma das melhores apresentações d'O Trilho, é necessário que se faça algumas breves considerações prévias sobre o que se está a escrever. Via de regra, os textos do Rock Pensante não se moldam em primeira pessoa do singular, mas sim, no plural, como uma forma de dar ao texto uma roupagem mais solta que, por consequência, será melhor apreciada por quem lê, justamente por não carregar uma opinião incisiva em seu corpo. Hoje, o presente texto sobre uma as melhores bandas desta cidade sem cor vai fugir à esta regra: vou ousar em expressar-me de modo mais direto, utilizando o "eu" ao invés do "nós", mesmo porque, na situação em que me encontro, esta definição parece-me mais adequada.

Pois bem. É importante que todos compreendam os grandes e cada vez menos silentes passos dados por alguns grupos que compõem a cena independente de Curitiba. Talvez isso se deva a grande carga criativa que algumas dessas bandas carregam: Trem Fantasma já provou que os termos "progresso e evolução" são os pilares que os sustentam; Pão de Hamburguer expande-se cada vez mais e lidera essa trilha; Te Extraño galga uma boa caminhada, entre tantas outras que aqui não caberiam descritas. Com o Trilho, a regra mantém-se igualmente verdadeira.

Todos sabem que o rock n' roll, em sentido extenso e não rotulado, "é o que é" hoje graças à sua capacidade de, simultaneamente, entreter, acrescer, idealizar e deslumbrar. É como se fosse uma espécie de jóia, um catalisador que fica inerte à disposição daqueles poucos aventureiros que sabem como utilizá-lo para cativar e trazer as pessoas para seu pensamento, independente do estado em que se encontrem, e em nossa história temos fortes exemplos disto, para todos os gostos e vertentes. Fato é que o Trilho, assim como as bandas antes citadas, sabe muito bem como manipular o referido catalisador, tanto a seu favor, como em prol de outros. Eis aí uma banda capaz de retirar qualquer pessoa de sua bacia de ânsia e dor para desfrutar momentos de deleite e alívio. Ao menos assim foi com este matuto e padecente redator.

A atmosfera do Jokers Pub também seguiu esta mesma premissa: o ambiente para o show, ao menos naquele momento não podia ser melhor. E O Trilho ia subir bem acompanhado ao palco no dia 8/10, já que parte da família Pão de Hamburguer e Te Extraño partilhariam do tablado com o grupo. As canções apresentadas pelo Trilho, em formato acústico (sem perder a força que os caracteriza), alvejaram o público diretamente: era uma bofetada típica de Nelson Rodrigues, que ninguém ousa esquivar.

Larguei os braços no ar quando "Rock Madeira" abriu o show do Trilho, com o baita auxílio de Leonardo Bokermann  e Joel Rocha, do Pão de Hamburguer, nas seis e doze cordas respectivamente; e com Carol Alencar, voz forte e fundamental que lapida todo o som do Te Extraño, no backing vocal. A sonoridade desta nova canção é ímpar, calcada na sonoridade hard dos anos 70, e fez com que, mesmo em roupagem acústica, corpo e mente pulassem e pulsassem como se estivesse (re)nascido exatamente naquele momento. E a dor que me puxava para baixo reduziu-se a vento e a pó, como os mitos gregos sempre apregoaram. "Me Deixa Cantar", cuja versão original volta-se para as raízes do rock nos anos 50, manteve o mesmo sabor no ar: Fabíola mantinha o público inteiro na mão enquanto André Prokofiev (é necessário especificar, já que O Trilho é formado por "Andrés") transformava o violão em uma típica batuta de regente para conduzir o avanço da banda sobre a platéia. Nem mesmo quando a referida "batuta" ameaçou estragar o momento com uma corda arrebentada O Trilho perdeu a atenção do público: era visível que a importância daquele momento valia qualquer espera.

Um dos pontos altos da apresentação ocorreu com "Dose Pequena", velha conhecida do público, cuja letra traduz uma gama tão variada de sentimentos que, a exemplo do que ocorre em outros campos artísticos (como a pintura, por exemplo), é capaz de causar em cada pessoa uma impressão e concepção diversas, como se a canção adotasse um significado particular e singular para cada ouvinte. Essa premissa se reproduziu de modo potencializado no referido show, vez que era possível perceber na expressão de cada presente um modo diferente de entoar a canção: alguns cantavam, outros (mesmo com o viés mais calmo do acústico) não se furtavam de pular e berrar, outros apenas olhavam, como se estivem a refletir o impacto daquilo tudo neles mesmos. Eu me enquadrei, naquele momento, neste tipo de espectador. "Dose Pequena" também trouxe uma outra surpresa: Carol Mira, parte da mesma família que já estava no palco, colaborou faticamente com sua sitar para que a canção se tornasse capaz de parar o tempo.

Adiante, as canções "Velha Roupa Colorida", "Minha Estrada" e "You Got the Silver", com destaque para a participação sempre presente de João Gaspari nos teclados, prepararam o terreno para o encerramento memorável do show: com "Esse Rock Foi Quem Fez", O Trilho fez, desta vez em uníssono, o público pular e cantar. Tal música representa bem capacidade idealizadora que o rock detém, e O Trilho soube utilizar com perfeição esta habilidade: cervejas foram abertas e os cigarros só não foram acesos porque a lei não permite mais a bendita fumaça em ambientes fechados.  André Somma completava as frases de Prokofiev, Leo e Joel com uma calma inalterável, que, junto com a levada das baquetas de Guilherme Richter, davam o tom vibrante que a canção denota. "Esse roque", de fato, como já dissemos tantas outras vezes, foi O Trilho quem fez, assim como a cabeça de todos nós.

E com a excelente versão acústica de "It's Only Rock n' Roll (But I Like It)", dos Stones, O Trilho transformou todo o ambiente em um único som, em um timbre uniforme, com todo o público interagindo com a banda, entre versos, refrões e aplausos. André "Bic" (o "último" dos "Andrés"  que comp~em a banda) desenvolveu com maestria a sonoridade das 4 cordas na canção, assim como em todas as outras: com ele, o som d' ficou mais cheio, denso, completo.  No fim, a satisfação era palpável ao ar, sensação esta vista tanto no palco, como na platéia. Um novo e importante passo foi dado não apenas na trajetória d'O Trilho, como também para a cena curitibana, que tanto luta para se renovar.

Quando a sonoridade baixou, era como se estivesse recém acordado de um estado de inconsciência. Caminhando para fora do Jokers, percebi que demoraria um certo tempo para absorver aquilo tudo, e talvez por isso essa resenha tenha demorado 13 dias para ser iniciada. Ao regressar, voltei também à minha bacia de ânsia, náusea e dor, mas com um sorriso intermitente na face: sabia que, certamente, dali em diante, o meu remédio seria o rock n' roll d'O Trilho. E as linhas tortas acima descritas são prova cabal deste fato. Que o efeito deste remédio não mais acabe para (e agora retorno à primeira pessoa do plural) todos nós.

Cheers!!!

Set List O TRILHO - ACÚSTICO MUNDO LIVRE FM (08/10/2010 - JOKERS PUB)

1. Rock Madeira
2. Me deixa cantar
3. Dose Pequena
4. Velha Roupa Colorida
5. Minha Estrada
6. You Got The Silver
7. Esse Rock Foi Quem Fez
8. It's Only Rock'n Roll (But I Like It)



O Trilho é:

- Fabiola Malerba (Voz)
- André Prokofiev (Guitarras)
- André Somma (Guitarras)
- André "Bic" Canneta (Baixo)
- Guilherme Richter (Bateria)
- João Gaspari (Teclados) 




Quer ouvir as versões acústicas do Trilho?? Basta acessar o MySpace da banda clicando AQUI ou, então, clicando no banner do grupo, que encontra-se no lado superior direito da tela.  

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