sábado, 5 de fevereiro de 2011

The White Stripes: O Fim do Começo


Antes que o leitor principie a leitura das linhas seguintes, peço a lincença poética tipicamente machadiana para intervir diretamente e solicitar que, antes de deitarem-se os olhos sobre o texto, se compreenda o seguinte: pontos de vista foram feitos para debate, e não para massacre. Acostumou-se a natureza humana a rechaçar tudo aquilo que era avesso à sua certeza quando melhor seria, por certo, aprender (ou ainda, "apreender") com a diferença. Sempre acreditei que boas críticas ou reviews - sejam elas sobre cinema, música ou qualquer outra manifestação artística - são aquelas que retiram o leitor de sua "zona de conforto" e lhe apresentam o novo, o contraponto daquilo que usualmente é oferecido para o consumo inteligível. Com isto, estimula-se o leitor para o ato de pensar, e fazer com que ele alcance aquilo que estaria distante da simples repetição do conteúdo que, para si, já era conhecido. 

Pois bem. Há menos de dois dias, os White Stripes oficializaram o fim de seus misteres, fato este que certamente não constitui novidade alguma, mas nos remete, ao menos, para uma reflexão. Talvez, por conta disso é que o presente texto encontre "sua razão de ser": fazer o leitor levantar, fechar as pálbebras, abrir os olhos e refletir sobre uma obra que trafega na contramão das formalidades.


Em 14 anos de intermitente produção, Jack White e Meg White (confessa-se: mais o primeiro que a segunda) consolidaram mais de meia dúzia de registros oficiais. Destes, muito há que ser destacado, e por conta disso é que não nos deteremos na qualidade de cada disco e etc. Vamos propor uma reflexão sobre os pontos mais curiosos e cativantes acerca da consolidação do trabalho da banda. Como diria o poeta bêbado  Bukowski: "here we go".

Quem sabe, por apego à arte ou qualquer coisa pura do gênero, o que Jack White propôs, desde os primeiros passos, foi algo próximo do que a arquitetura desconstrutivista propunha ao fim dos anos 80: modular, em síntese, a partir de uma construção não linear, a manipulação das ideias mais "superficiais" e palpáveis ao público. Desde o primeiro passo, Jack buscou no anverso (parte frontal de qualquer objeto com duas faces) demonstrar, de certo modo, como a arte se estrutura de modo "não-linear", cru e sem uma razão óbvia. Talvez por conta disso, o álbum homônimo de estréia dos White Stripes tenha soado menos competente do que realmente é. Em certa medida, ainda que com velada desconfiança, o mesmo tenha ocorrido com os dois trabalhos seguintes da banda: "De Stijl" e "White Blood Cells". Mas, mesmo que sob perspectiva pessimista, há que se contextualizar ambos os trabalhos (e ainda aqueles que os sucederam) sob um contexto artístico temporal.



No horizonte do século XXI, pouco se fazia sobre o rock n' roll. Fusões, misturas, regressos: muito do que se construiu pouco se agregou ao "novo" que alguns buscavam. Eis, então, que emerge uma "dupla" que, a partir de perspectivas artísticas, acabou por sublimar todas as justificativas de sua sonoridade: a partir das tríades das cores branco, preto e vermelho e das perspectivas narrativa, melodia e ritmo, os Stripes alicerçaram a desconstrução necessária para um (re)começo, assim como o foi quando "Smells Like Teen Spirit" abriu, pela ignorância, os portões do novo que há muito se buscava. Das batidas pueris que principiam a primeira canção do primeiro e homônimo disco dos Stripes - "Jimmy the Exploder" - até a derradeira faixa de "Icky Tump" - curiosamente intitulada de "Cause & Effects" - este descompromisso proposital é percebido. Para quem quiser ir mais a fundo (e aqui seria prazeroso fazê-lo), basta dar o play no excelente "It Might Get Loud" para ver o Sr. White "construindo" uma "slide guitar" (sim, o termo tecnicamente não existe) e afirmando, em alto em bom som, depois de fazer a música reverberar: "Quem foi que disse que você precisa comprar uma guitarra?"

Este sempre foi o norte dos Stripes: através do adverso, extrair o que há de melhor. Até mesmo o envolvimento com a "vanguarda artística holandesa neoplasticista" possui suas razões - e longe disso há algo que pareça insensato, pueril ou desnecessário. Há muito que o niilismo deixou de ser o "vazio pelo vazio" para preencher aquilo que faz falta. Talvez aí resida a razão que justifique o "impulso" de Jack White "emprestar" o ideal punk para consolidar algo que há muito era necessitado. Assim como Kurt Cobain o fez dez anos antes (ainda que sem a mesma virtuose) comprovou-se que do vazio também brotam lírios, e que dos lírios exsurgem os perfumes que impulsionam a critativade daqueles que se propõem a tentar compreende-la. E foi assim, na mesma trilha que "The Velvet Underground" e "The Cramps" haviam seguido décadas antes, que a banda "The Upholsterers" - primeiro "grupo" de Jack White -  desconstruia o tecido do passado para alicerçar o cimento do que seria feito no futuro, arrematando o avesso que havia no material. Afinal, como Clarice Lispector já afirmava, "(...) e das plantas vinha um cheiro novo, de alguma coisa que se estava construindo e que só o futuro veria." Para o futuro se guardou o melhor, e é adiante que a compreensão deve ser buscada.


Nesses moldes é que assentaram-se as "formas" das pedras fundamentais da banda: "Elephant" e "Get Behind Me Satan". Mesclando força despretensiosa com canções fáceis de assoviar, os Stripes reformularam o manjado clichê do "verso-refrão-verso" para consolidar algo novo: às linhas simples de guitarra mesclaram-se a sonoridade barata do teclado remendado. Sons atonais e simplesmente complexos preencheram as lacunas vazias, superando o niilismo colocado como pressuposto. Eis que o "dado" acabou por ser "reconstruído", e com isso, a arte foi quem de fato lucrou.

Muito do que os White Stripes fizeram veio em consequência do fascínio que o Flat Duo Jets, banda oriunda da Carolina do Norte composta por apenas uma guitarra e bateria, exerceu sobre Jack White, principalmente no que diz respeito às interpretações da banda sobre as canções folclóricas do blues americano. Plágio de uma boa ideia? Como ensinou Mick Wall na obra "Quando os Gigantes Caminhavam sobre a Terra", vale advertir: "David Bowie plagiou os Stones em 'Rebel Rebel'; os Stones plagiaram Bo Diddley em 'Not Fade Away'; os Beatles plagiaram Fats Domino em 'Lady Madonna'; e todo mundo plagiou os Beatles em alguma coisa." É assim que a arte nasce: de influência. Quem acha o contrário, que queime todos os discos do Zeppelin, pois muito do que há neles é "influência" de alguma coisa.




Enfim, o que os White Stripes propuseram nesses anos foi um novo meio de encarar, ouvir e consumir o rock n' roll. Olvide dos clichês inerentes a "quem é" Jack ou Meg White: irmãos, amantes, lunáticos... Não importa. Muitos artistas eternos lançaram mão dessa ferramenta marqueteira, e o alfabeto da história é repleto de exemplos; e nem por isso tais artistas/bandas foram renegados. O que se tem aqui é arte: atonal, microfônica e objetiva, assim como Beethoven foi para o século XVIII e Kubrick para o século XX, guardadas, claro e por certo, as devidas proporções do bom senso.

Mas o que se atendeu foi a súplica por mudança, e isso os Stripes fizeram com louvor: foi o anverso exposto pelo verso na busca de se evidenciar que, pelo não óbvio, a arte fica mais amarga e prazerosa. Abre-se mão do clichê para reconstruir algo que ainda não fora visto, sentido ou ouvido. A história tem desses caprichos, e por vezes somos agraciados com o testemunho de sua realização. No último dia 5, oficialmente encerrou-se um desses exemplos. Chega, então, o momento de buscar mais uma vez o novo. "O White Stripes agora é de vocês", disse Jack White. Façamos dele, então, o trampolim para o melhor que ainda está por vir.

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