terça-feira, 29 de março de 2011

2011 - Angles

O site Galeria Musical publicou hoje uma resenha sobre o lançamento do novo álbum dos Strokes, "Angles", que conta com nossa assinatura.  Segue abaixo a reprodução na íntegra da resenha, que pode ser lida em seu formato original AQUI

Das bandas de real destaque que floresceram neste novo século, os Strokes foram, certamente, um dos grupos responsáveis por fazer despontar no horizonte um fio de esperança para a continuidade do bom rock n’ roll, distante, em certa medida, de todas as tendências nitidamente comerciais que permeiam a música da virada do ano 2000 até hoje. Com seu mais recente trabalho, a trupe de Casablancas seguiu a trilha neste mesmo sentido. E, no fim das contas, este é o seu calcanhar de Aquiles: com “Angles”, os Strokes acabaram por dar um passo longo demais na direção de tal horizonte.

De início, o que mais impressiona em “Angles” são dois elementos que, ao longo da audição, podem ser constantemente percebidos: a sua incessante fuga do óbvio e a sonoridade calcada nas diretrizes oitentistas. Esta última característica é nítida já nos segundos iniciais de “Machu Picchu”, faixa de abertura do disco. O beat provido por Moretti nessa canção (e como em boa parte das demais) é responsável pelo seu crescimento, pelo seu desenvolvimento – e também pela sensação de ter um “pezinho” nos anos 80, que também se manifesta na musicalidade da faixa “Two Kinds of Happiness”. David Fricke, crítico musical que dispensa apresentações, classificou o trabalho do brasileiro, em sua resenha para a Rolling Stone, como “estóico”, no sentido de que todas as demais passagens das canções (sejam das quatro ou seis cordas) nascem obrigatoriamente do movimento de suas baquetas. Talvez por isso, essa constante sonora seja percebida nas dez faixas que compõem “Angles” o que, por si só, não concretiza algo negativo.

Na verdade, as coisas ficam um pouco mais complicadas quando o referencial dos anos 80 se junta com a incessante busca pelo novo, com fuga do óbvio. Isso faz com que “Angles” seja diametralmente oposto ao cannonball representado por “This is It”. Aliás, em certa medida, “Angles” pouco se assemelha ao até então mais “ousado” trabalho da banda, “First Impressions of Earth”. Contudo, isto não significa que o mais recente trabalho dos Strokes seja descartável, pelo contrário; e diversas faixas dão conta desta perspectiva.

“Under Cover of Darkness” é prova disso, podendo ser considerada a canção mais “próxima” aos clássicos já destrinchados pelos Strokes. Das faixas que inovam, destaca-se “Call Me Back”, uma bela peça artística que remete o ouvinte para dentro de si, enquanto as seis cordas seguem em um compasso muito familiar aos tímpanos brasileiros. É uma canção calma e reflexiva, permeada por jogos de vocais, que em nada se assemelha à objetividade dançante de “Someday”, por exemplo. Mas é, de longe, a canção mais interessante que “Angles” tem a oferecer. Outro bom momento repousa em “Life is Simple in the Moonlight”, que potencializa as características de “Call Me Back” com acerto, aliando a sacada da letra com uma musicalidade interessante. Mas “Angles” também tem espaços para esquisitices sem sentido: “You’re So Right” faz uso de samples eletrônicos em MIDI para tentar concatenar as linhas de baixo e guitarra. De tão estranha e aparentemente equivocada, “You’re So Right” poderia seguramente estar incluída no novo disco do Radiohead, “The King of Limbs”.

Mas não se engane: “Angles” é um excelente disco. Afastado do óbvio, o álbum proporciona uma nova e interessante reflexão, ora desconexa, ora objetiva, mas, ainda assim, nitidamente artística. O grande problema reside na irresistível comparação com os trabalhos que o precederam: em tal comparativo, “Angles” não parece fruto do trabalho dos Strokes, mas sim de uma banda cuja identidade ainda não fora bem delineada. No fim, Casablancas e cia. merecem aplausos pela coragem de soltar as amarras do passado e voar em direção ao novo. Uma pena que isso não traga como resultado aquilo que muitos queriam ouvir.

domingo, 13 de março de 2011

2011 - The King of Limbs

Em tempos nos quais a figura do spoiler apresenta cada vez mais força, esperar um certo tempo após o lançamento de um álbum inédito para  ouvi-lo com cuidado parace ser uma atitude de bom senso. Não que as resenhas deflagradas com o lançamento de discos representem uma espécie de "contaminação" à opinião alheia; longe disso. Mas é inegável que o período de maturação de algumas semanas após o surgimento dos trabalhos inéditos proporcionam uma audição mais limpa: a leitura dos textos que inundam as vistas de muitos servem apenas como mero referencial que, geralmente, se perde quando o leitor passa a ser ouvinte sincero de um novo registro. Portanto, este texto não foge a regra: é mais um entre tantos outros e talvez não agregue nada de novo para leitor algum. Mas essa espera para ouvir atentamente "The King of Limbs", nova supresa do Radiohead para o mundo, traz bons frutos para quem possui paciência.

Após quatro anos de um hiato bastante compreensível, a trupe de York foi mais longe em termos de complexidade do que o mais incrédulo ouvinte poderia supor. "The King of Limbs", oitavo registro do Radiohead, apresenta-se modulado em formato clássico cujo conteúdo prentende, incessantemente, apontar para o futuro. Formato clássico, sim: o álbum conta apenas com 8 faixas (oitavo disco, que coisa não?) e é bastante direto, assim como boa parte das coisas boas havidas na década de 80 (olha o "8" de novo aí) o foram: o debut do Iron Maiden, "Let's Dance" de David Bowie e "Master of Puppets" do Metallica são bons exemplos disto. Mas, do clássico, "The King of Limbs" vai em busco do novo, daquilo que não se conhece: é, em síntese, um disco difícil, complexo, que se apresenta diferente a cada audição e percebe diretamente os efeitos do ambiente em que o disco é projetado e ouvido.
 
Esta é a impressão que "Bloom", faixa de abertura, deixa transparecer. Parece ser o tema inicial ou de encerramento típico de um bom filme cult: experimento ouvir "Bloom" visualizando trechos de "Blade Runner" e você irá se sentir o próprio Deckard no encalço apaixonante dos Replicantes. Essa sonoridade complexa representa uma espécie de fio condutor que conduz o ouvinte por todo álbum: provas disto estão no corpo de "Feral", canção mais "radiohead" - leia-se "para lá de curiosa" - na carreira do Radiohead. Mas não é somente sons e impactos que "The King of Limbs" é composto: ele também é estruturado por inúmeras palavras que, unidas, formam um belo bofete no rosto de nossos tempos hipermodernos.

A letra de "Little by Little" é um bom exemplo disso: "Obrigações, complicações, rotinas e compromissos, é o trabalho que está matando você". O cumprimento hipócrita percebido em "Morning Mr. Magpie" pode igualmente ser interpretado como um descontentamento nitidamente atual: Mr Magpie é o "ladrão" da criatividade de nosso dia a dia, responsável pela mesmice que há muito percebemos. Como um todo, o novo álbum do Radiohead apresenta inúmeros significantes no que tange às suas letras, tanto que poderíamos escrever páginas e páginas sobre o tema.

Retornando ao quesito "musicalidade", apesar de muitos apontarem "Lotus Flower" como a canção mais fácil de ser digerida do novo disco, aqui temos que "Codex" e sua interessante condução ao piano representam os sinais mais característicos das "baladas" (e as "aspas" aqui fazem-se necessárias) que o Radiohead já produziu, a exemplo de "Fake Plastic Trees" e "Karma Police", o que a torna mais saborosa se comparada às demais faixas, cuja ausência de refrões e passagens complicadas tornam a audição um pouco mais complicada para quem não está habituado ao universo de paradoxos que o Radiohead é capaz de criar.

De qualquer maneira, levando-se em conta as inúmeras obras musicais intragáveis que somos obrigados a "degustar" todos os dias, "The King of Limbs" merece ser brindado como um ode à criatividade. Ainda que não seja um álbum apto a furar os cd players após infinitas audições, o mais novo registro do Radiohead não é, nem de longe, vazio: as inúmeras texturas que o compõem informam uma qualidade que poucos artistas são capazes de evidenciar nos dias de hoje. Will Hermes, crítico musical da Rolling Stone, ao analisar "The King of Limbs" fez uso do termo blossoming que, em linhas gerais, indica a ideia de florescer. Quem sabe é isto mesmo que "The King of Limbs" represente, o florescimento de uma criatividade complexa e diferente que luta para manter-se viva. Se isto é bom ou ruim, só o tempo dirá. Até lá, apenas uma coisa é certa: o mais recente trabalho do Radiohead, para ser de fato compreendido, merece uma dezena de audições. Paciência é, pois, uma virtude.
Set List:

1. Bloom
2. Morning Mr. Magpie
3. Little by Little
4. Feral
5. Lotus Flower
6. Codex
7. Give Up the Ghost
8. Separator

quarta-feira, 9 de março de 2011

Blindagem e Pão de Hamburguer Sobem ao Palco do Blood Rock Bar



Na próxima sexta-feira, dia 18/03, duas gerações do rock paranaense promoverão um encontro inesquecível: a eterna Blindagem recebe no palco do Blood Rock Bar a boa música do Pão de Hamburguer, banda destaque do cenário independente curitibano, que vem galgando importantes passos na sua carreira e impulsionando, por consequência positiva, a formatação da cena curitibana. A noite ainda conta com a participação da notória .50, power trio que, a cada dia, agrega para si um público crescente e fiel.

Em 2010, o Blindagem e o Pão subiram, no dia 23/04, ao mesmo palco do Blood Rock para homenagear Ivo Rodrigues, que nos deixou em 8 de abril daquele ano. A noite do dia 23 foi uma daquelas merecedoras do adjetivo da singularidade: apesar do frio e de uma garoa incessante, o público presente pode sentir e fazer parte de uma noite mágica, sublime, onde as canções do ontem  e do hoje se juntaram para celebrar a eterna vida de Ivo. O Rock Pensante lá esteve, e a resenha daquele show memorável pode ser lida AQUI

Por conta deste prospecto impecável, já seria obrigatória a presença do público no Blood Rock Bar. Porém, como na música tudo é alegria, pode-se ter plena certeza de que a apresentação da próxima sexta irá superar o show do ano passado. Depois de apresentar-se com a benção do Sol no festival Psicodália, o Pão de Hamburguer vem com ânimo renovado, apresentando as canções que compõem seu DVD "Ao Vivo no Guairinha" e o EP que resultou da participação do Projeto Gravando Curitiba, além de material inédito, produto das novas composições dos "breads". Já o Blindagem...  Bem, Blindagem é Blindagem, e dispensa qualquer tipo de apresentação ou comentário: sua história e sua música eterna o precedem.

Eis então a missão do público fiel da boa música paranaense, que independe de rotulações desnecessárias: comparecer ao Blood Rock Bar para celebrar, uma vez mais em uma noite única, os novos nomes do rock curitibano e seu eterno grupo, cuja história se mistura com a nossa história. Ivo, lá de cima, já está a aplaudir. Agora é nossa vez.

18/03/2011 - BLINDAGEM, PÃO DE HAMBURGUER & .50

Local: Blood Rock Bar (Rua Carlos Cavalcanti 1212)
Horário: a partir das 23h
Valores: Ingressos no local e na hora - R$ 10,00 (Masculino e Feminino) 

OUÇA MÚSICA CURITIBANA:




12/03 - Saturday Hard Night com Silvermoon no Hangar Bar Curitiba


Passado o carnaval, é hora de esquecer o som dos pandeiros e regressar à boa rotina rocker que tanto nos motiva. Para tanto, nada melhor que curtir os eternos clássicos do hard rock com a banda que mais entende do assunto em Curitiba: Silvermoon, referência no quesito tributo em Curitiba, subirá no palco do eterno Hangar Bar, no dia 12/03 (sábado), para povoar a noite curitibana com o melhor do hard rock  e AOR.

Sempre preocupada em oferecer com seus setlist's pérolas do subgênero mais cativante do Rock n' Roll, a Silvermoon é amplamente reconhecida por ser a tradução de um saboroso espetáculo, onde o público é quem sai ganhando. Quem já participou das noites de alegrias capitaneadas pelo grupo, sabe o quanto isso é verdade.

Ademais, para aqueles que comparecerem ao Saturday Hard Night, além de aproveitar o melhor do hard rock curitibano, será possível também prestigiar Ronaldo Jr, vencedor do 1º Prêmio Ivo Rodrigues como melhor tecladista, pelo seu trabalho com a banda Dark Symphony. A premiação, concretizada pela ímpar iniciativa do Arquivo Metal Cwb coroou os detaques do rock/metal em Curitiba, promovendo ainda mais a cena curitibana, que vem mostrando um irrefreável crescimento.

Pois bem, sejamos urgentes. Confira as informações abaixo e participe desta celebração do Hard Rock curitibano com uma das melhores bandas de nossa cidade. Nos vemos lá!!

Cheers!!!

SATURDAY HARD NIGHT - DIA 12/03/2010

   - Bandas: Silvermoon (Hard Rock-AOR) e Whisky (Motley Crüe Cover)

Local: Hangar Bar (Rua Dr. Muricy, 1091 - Largo da Ordem)
Horário: A partir das 22h
Valores: Entrada a R$ 10,00 (Mulheres têm free pass até às 23h) 

Saiba mais sobre a banda Silvermoon clicando AQUI

Acesse a agenda completa do Hangar Bar clicando AQUI 

sexta-feira, 4 de março de 2011

1988 - Live at the Ritz

Na segunda metada de década de 80, o Guns n' Roses ostentava um título ao qual fez por merecer: a banda mais perigosa do mundo. Essa "fama" surgiu dos shows da banda que, no início da carreira, eram próximos ao caos, sem qualquer exagero residindo nesta afirmação. Na verdade, esse "caos" já era percebido antes mesmo da memorável junção do L.A. Guns com o Hollywood Roses, quando Slash, anos antes, já fazia misérias nada musicais em sua "banda embrião", Tidus Sloan, e Duff McKagan circulava pelo circuito punk de Seattle. Essa era, de fato, uma característica que unia o Guns n' Roses como uma irmandade: a vida levada ao extremo, recheada de pobreza, drogas e violência.

Pode até soar clichê, mas era disso mesmo que o Guns era feito, como se fossem uma versão anos 80 do Hanoi Rocks, banda que vivia tão encharcada em drogas que era capaz de deixar o Aerosmith e Nirvana no chinelo. Depois de firmado o contrato com a Geffen Records, que culminaria com o lendário "Appetite for Destruction", pouca coisa mudou neste cenário, que alternava momentos de explosões (como a apresentação em um pequeno clube de L.A., onde Axl, para variar, arrebentou a cabeça de alguém da platéia) e de apresentações mais profissionais, como esta que vem à tona, resultante do áudio em MP3 do DVD do show feito no Ritz, em Nova York, no ano de 1988.

Quando ouvimos as canções desse show, sentimos saudades de como o Guns era e, até certo ponto, o que ele representava. Todos os elementos essenciais da banda estão lá: desde a vigorosidade obscena do grupo até o descontrole da platéia, visto quando um desatinado tenta retirar o microfone de Axl. Isso sem contar a performance memorável de todos, seja no auto-controle de Izzy e Duff, na alegria pueril de Adler ou na selvageria que Slash apresentava. Destaque especial para a execução clássica de "Knockin on Heavens Door", mais simples se comparada à extensa versão vista na turnê dos Ilusions. Eis o Guns n Roses em estado bruto, que muito nos faz falta nos dias de hoje.

Cheers!!!


Set List


1. It's So Easy
2. Mr. Brownstone
3. Out ta Get Me
4. Sweet Child O'Mine
5. My Michelle
6. Knockin' On Heavens Door
7. Welcome to the Jungle
8. Nightrain
9. Paradise City
10. Rocket Queen


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quinta-feira, 3 de março de 2011

2010 - Aqua

Um disco de... literatura? Observando o conceito que permeia "Aqua", novo disco do Angra, tal definição torna-se verdadeiramente plausível. É comum que diversas bandas desinentes do heavy metal passem a objetivar algumas canções (ou um álbum inteiro, como é o caso) baseados em poemas, contos, livros ou ensaios filosóficos. Na verdade, o metal é um terreno fértil para esse tipo de projeto, em grande parte de suas vertentes: por ser complexo e, até mesmo, refinado, o diálogo cultural do metal com outras manifestações artísticas geralmente garante bons frutos. Todavia, as coisas tendem a ser mais complicadas do que aparentam em primeira impressão, ainda mais quando se trata do esperado lançamento de uma banda amada por muitos. Por isso, antes de alçarmos a "análise" de algumas faixas e do próprio conceito que permeia "Aqua", é imprescindível que algumas ressalvas sejam feitas.

Vimos como exemplo, nos últimos dias, a dimensão de discussões que um lançamento relativo à uma grande banda pode causar: "The Final Frontier", do Iron Maiden, provocou um verdadeiro debate entre os fãs do grupo, que não recearam em expor opiniões sobre o álbum, sejam elas espelhadas ou não em bom senso (como ocorreu com a maioria delas). Pouco antes do lançamento de "Aqua", os pessimistas de plantão já "alertavam" para o fracasso e, quando finalmente saiu, tais opiniões permaneceram na minoria. Portanto, o que será feito nesta resenha não se vincula à uma ou outra corrente de pensamento: trata-se de uma análise sensata e imparcial de um álbum de heavy metal que traz em si um conceito literário, experiência salutar que deve ser apreciada até o último momento. Lógico, não podemos fazer tal análise desvinculando ao álbum da figura do Angra, mas, na medida do possível, tentaremos observar "Aqua" por um prisma neutro, tecendo comparações somente quando indispensável, ou então, quando tal comparação trouxer bons frutos.

Pois bem. O conceito que permeia "Aqua" deriva daquela que é considerada a última peça que Shakespeare escreveu em vida, "A Tempestade", cuja data é indicada por alguns como em torno de 1612(muito embora existam fontes que asseverem que a peça fora em encenada pela primeira vez em 1611, no palácio Whitehall, em Londres).

A obra trata de temas usuais, geralmente presentes nos trabalhos shakesperianos, como traição, amor, vingança, conspirações e traços da sociedade do século XVII, que mostram o ser humano e suas faces, sejam aquelas grotescas ou amigáveis. Em breves linhas, a história narra a tragédia de Próspero, antigo Duque de Milão, apaixonado pelo conhecimento e pela arte da magia, é traído por seu irmão Antonio, que almeja ocupar seu lugar no cenário político local. Após o golpe de seu irmão (que contou com o apoio de outros nobres), Próspero e sua filha Miranda são abandonados em uma ilha distante, que serve de cenário para a peça. Quando o rei de Nápoles, anos mais tarde, e sua comitiva real (que conta com os mesmos nobres que traíram Próspero, inclusive seu irmão, agora Duque) retornam de uma viagem marítima e aproximam-se da ilha de Próspero, uma intensa tempestade (criada pela magia do Duque traído) abate os navios reais e fazem com que seus ocupantes sejam trazidos, pelo mar, até a ilha, onde Próspero pretende completar sua vingança, instaurando a loucura em todos aqueles que o traíram. Todavia, como em toda peça shakespeariana, o amor surge para fixar-se ante a vingaça: Miranda, filha de Próspero, apaixona-se pelo filho do Rei de Nápoles.

É neste ambiente inicial que "Viderunt Te Aquae" e "Arising Thunder" surgem para abrir e apresentar "Aqua" aos ouvintes. As canções ambientam-se na tempestade criada por Próspero para destruir os navios de Nápoles e trazer à ilha os seus desafetos. "Viderunt Te Aquae" aposta na conhecida receita do Angra em transformar as canções de abertura em peças instrumentais concisas que criam o terreno para a força da faixa seguinte, ao exemplo de "Deus le Volt!" e "In Excelsis". "Arising Thunder" aposta em criativas linhas de guitarra e em um refrão de qualidade para prender a atenção do ouvinte. Em alguns instantes, é possível perceber a influência de Malmsteen na canção. A letra, ao seu turno, caminha em passos certos à história de Shakespeare, apresentando a vingança de Próspero, representada pelos trovões de sua tempestade.

Adiante, "Awake From Darkness" introduz um dos melhores momentos de "Aqua": o riff da canção sustenta-se em uma criatividade ímpar, refletindo o peso do som que estamos habiatuados a ouvir. Kiko Loureiro e Rafael Bittencourt fizeram nesta faixa um excelente trabalho. A canção atinge seu clímax após o refrão, quando o compasso acelerado é abreviado por um retrato mais calmo, pintado por pianos e violinos. Ao seu fim, o peso retorna com as seis cordas, em um solo memorável e interessante, que conduz a canção até o seu fim. "Awake From Darkness" ambienta-se na reflexão de Próspero, ao contar para a sua filha Miranda o duro golpe que sofreu com a traição de seu irmão. Seus sentimentos são palpáveis nos versos iniciais da canção: "Out in the dark I roam/Onward to meet my fate/Time's an illusion today/Away from all I know/A frail that is filled with pain/Feeling the lifeless taste ahead/I wish for no more than air". Na mesma canção também é possível trafegar pelo âmago da vingança de Próspero, e a importância de sua paixão pelo conhecimento, que o libertou do medo e ensejou os primeiros passos de sua vingança.

Adiante, "Lease of Life" abre mão da roupagem mais densa e pesada do início do álbum para criar um ambiente mais rebuscado e leve. A canção procura proporcionar ao ouvinte a chance de penetrar na atmosfera de "A Tempestade" narrando o encontro de Ferdinando, filho do Rei de Nápoles, com Miranda, filha de Próspero. Ferdinando, após a tempestade, é atingido pelos encantamentos de Arial, espírito a serviço de Próspero, que o faz ouvir vozes e cânticos de ninfas. Atormentado e julgado-se louco pelas vozes que houve, sua desorientação cessa apenas quando encontra Miranda vagando pela ilha: eis que surge o já famoso traço do "amor" shakespeareano. Apesar de ser uma canção muito bem trabalhada e narrar de modo fiel o conceito que a conduz, "Lease of Life" destoa do peso inicialmente observado em "Aqua" e, de certo modo, chega a afastar-se da sonoridade da qual o público da banda está acostumado. Talvez por isso, tal faixa leve um certo "tempo" para ser compreendida por completo.

"The Rage of Waters" também apresenta um quadro interessante que acaba por fugir um pouco da receita usualmente percebida no Angra. É também nela que percebemos o diferencial presente no trabalho de Ricardo Confessori, nitidamente mais ligados aos ritmos "étnicos" brasileiros: a percussão demonstra a positiva possibilidade de se explorar novos e antigos elementos. Mais a frente, "Weakness of a Man" repete tal premissa, desta vez com Kiko Loureiro guiando o leme criativo da canção. Todavia, nem mesmo todas estas qualidades livraram "Aqua" de alguns equívocos, como a música "Hollow", sustentada por um desenvolvimento opaco levado ao extremo ao retratar toda a mágoa e ódia que guiava Próspero em sua vingança.

Em suma, "Aqua" apresenta uma resultante final capaz de surpreender alguns fãs do grupo, justamente pela sonoridade mais calma que algumas canções apresentam. Todavia, essa estranheza se encerra a partir do momento em que o ouvinte lê "A Tempestade": é nítido que seria impossível ao Angra retratar a história de Próspero mantendo o peso natural de seu som. As nuances contidas nas canções representam as mudanças de tons da própria obra de Shakespeare; elas se moldam para retratar, em modo mais próximo possível, por exemplo, como a vingança de Próspero tornou-se arrependimento e como diversos outros fatores e sentimentos incrustados em tal história se estruturam. Por isso, seria interessante que, ao ouvir o disco, o ouvinte também lesse "A Tempestade", sob pena das alterações sonoras de"Aqua" não fazerem lá muito sentido ao ser executado.

Esta talvez seja a "desvantagem" de se adpatar um conceito à um disco, e retratá-lo através da música: se não seguir-se o rumo da história e retratar seu ambiente, o disco perde sua razão de ser, transformando o diálogo entre literatura e música em um punhado de coisas sem muita lógica. Por isso, não há muito o que contestar: "Aqua" é um excelente resultado temático, e todos os integrantes do Angra obtiveram êxito em desempenhar suas funções. De fato, "A Tempestade" de Shakespeare não poderia ser contada de melhor forma.

Cheers!!!

Set List:

1. Viderunt Te Aquae
2. Arising Thunder
3. Awake From Darkness
4. Lease of Life
5. The Rage of Waters
6. Spirit of the Air
7. Hollow
8. A Monster in her Eyes
9. Weakness of a Man
10. Ashes

Para ouvir "Aqua", basta acessar o Myspace do Angra clicando no banner ao lado direito da tela.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Curitiba Pede "Esquenta" para Apresentação de Slash


Curitiba já deu o start na contagem regressiva para a apresentação de Slash, que ocorrerá daqui há exatos 38 dias no Curitiba Master Hall. Em geral, pode se considerar como "regra" o fato de que um evento deste porte demande uma série de outros acontecimentos paralelos, como pequenos shows dispostos a escaldar a alma do público com aperitivos daquilo que virá. Assim, a principal missão dos "esquentas" é basicamente isto: instigar o público alvo a comparecer no evento principal, fomentando diversão, música e, certamente, lucro, tanto para quem abre as portas para o evento, como para quem se dirige a ele. Afinal, em um show da mesma dimensão percebida no trabalho de Mr. Saul Hudson, é certo que o público alvo é bastante extenso.

Com isso em mente, os fãs de hard rock curitibanos se uniram e iniciaram uma campanha para promover mais um "esquenta", desta vez para o show de Slash. Tanto o local como a banda tributo já foram escolhidos: o palco desejado pelo público é o Crossroads, e a banda, a Rock n' Roses, que já há um bom tempo atravessa o Paraná levando o nome do clássico Guns n' Roses aos cantos e recantos paranaenses.




De antemão, você pode estar se perguntando: "Mas que besteira! Por que diabos uma banda cover de Gn'R vai ser responsável pelo esquenta do show de Slash???" A resposta é dada pelo próprio público: é certo que, apesar de eternamente ligados, Gn'R, hoje, não é sinônimo de Slash, nem vice e versa. Porém, Curitiba, até o presente momento, não possui uma banda tributo específica ao "Sr. Cartola" (aliás, pelo que se tem notícia, o único grupo "100% Slash" do Brasil reside no Rio de Janeiro), e a Rock n' Roses, em suas andanças, já se mostrou muito capaz ao qdar conta da missão de interpretar o Guns e apresentar os maiores clássicos de Slash, seja em canções de seu recente trabalho solo, ou algumas pérolas do SnakepitVelvet Revolver.

A campanha começou na comunidade do Orkut do Crossroads, e já está se espalhando pelo Twitter e pela caixa de email da gerência da casa roqueira mais tradicional de Curitiba. Para participar é simples: basta clicar AQUI para acessar o tópico da comunidade do Cross no Orkut e deixar lá seu recado, apoiando a concretização do esquenta com a Rock n' Roses. Por Twitter, a missão é mais fácil ainda: basta disparar 140 caracteres de apoio ao evento para @barcrossroads e contribuir ainda mais com este pedido crescente. Aliás, fica aqui uma ressalva: bom seria se o público curitibano tivesse tamanha disposição para ajudar igualmente as bandas que constroem sua arte a galgar ainda mais espaço.

Fica aqui, então, a dica: se você é um dos milhares de rockers que irão invadir o Master Hall no dia 08/04/2011 e quer intensificar ainda mais este acontecimento com uma "prévia" do que está por vir, vote no Orkut e no Twitter para ajudar na concretização deste evento. Este diálogo entre público e casas de show é imprescindível para o crescente desenvolvimento da cena musical da cidade. Vejam os links abaixo e votem!

Cheers!!!

Comunidade do Crossroads no Orkut para votação: Clique AQUI

Twitter do Crossroads para mensagens de apoio: @barcrossroads


Votos também podem ser enviados por e-mail para o endereço: contato@crossroads.com.br


Conheça mais sobre a Rock n' Roses acessando: http://gunscovercuritiba.blogspot.com/


Perfil da banda no Orkut: Clique AQUI  para visualizar e adicionar