sexta-feira, 8 de julho de 2011

Hoc erat in votis

Confesso que não sei bem o que impulsiona este trêmulo encetar de letras nessa folha branca que, em verdade, não existe. Já há muito aqui não escrevo, e isto por razões bastante simples, claras e diretas. Por provável, quem se deu ao trabalho de deitar os olhos sobre as discrepâncias aqui escritas ao longo de, ao menos, 395 dias (a vós, agradeço sinceramente), sabe a razão da pausa; e à esta causa, não me dá prazer algum retornar. E esse "não saber" a razão de hoje escrever, de per si, já seria o suficiente para impedir, obsedar ou mesmo desencorajar mais essa tentativa minha de, com palavras, estruturar algo útil. Mas, vá lá, darei uma chance ao acaso. Se o fruto não causar doce sabor, já aqui deito as desculpas antecipadas.

Nesses dias me peguei pensando nos rumos que a música tem seguido em nosso país. O pensamento era amplo e, por isso, naquele momento inicial não quis limitá-lo em classificar qual tipo de música e qual lugar do país a reflexão versava, quiçá por saber desde o início, lá no fundo d'alma, o lugar onde este pensamento travestido em nau atracaria. De qualquer modo, mesmo sem aparar as arestas desse pensamento, identifiquei um "lugar-comum" que acabou por servir como cerne da reflexão: "consumo". Cada vez mais, percebe-se uma nítida sinonímia entre música e consumo. Não que antes não fosse assim; mas tendo a acreditar que, mesmo nessa semelhança, havia, sim, uma importante diferença. Essa perspectiva melhor se compreende se particularizada.

Outrora, mesmo em terra brasilis, o rock n' roll (agora, classifico o "tipo" musical) carregou a característica emancipadora da livre expressão. Pense no Brasil da década de 1980; ao par da desordem econômica, florejou naquele solo a importante ascenção da identidade "roqueira" no país. Tantas e tantas bandas nos servem de exemplo para isso e, de um modo ou de outro, a "música rock" foi importante ferramenta para a lapidação da voz daquela juventude que, após quase vinte anos, recebeu novamente a liberdade antes recolhida aos quartéis - e com ela enfim em mãos, não sabia muito o que fazer.

Todavia, com o fluir do tempo (sempre ele), aquela voz muda começou a tomar contornos de som e, com um grande evento ao distante ano de 1985 (que aqui não nominaremos em respeito e temor a esse fantasma insepulto), a conotação política que caracterizaria essa desinência musical, naquele momento, ficou evidente. Não há muito o que negar (o próprio Sam Dunn o admite): o rock n' roll serviu, na década de oitenta do último século, no caso brasileiro, como o amplificador de uma geração que apenas queria passar uma mensagem: "cá estamos, existimos e daqui tão cedo não sairemos". Virando a ampulheta, na espera do último grão de areia que resta cair, chegamos ao hoje e, novamente, não encontro voz, amplificador e sequer uma alma viva. Apenas o que se vê é um grande salão vazio de gente, bagunçado de objetos e sujo pela falta de ideias.

Ligo o rádio e é extremamente difícil saborear o que se escuta. Abro os olhos, olho para a tela, e é extremamente difícil aprovar "aquilo" que eles promovem. Saio de casa, encaro a noite insône de Curitiba (agora, classifico também o local da reflexão) , perco a conta de quantos artistas verdadeiros tropeçam uns nos outros, madrugada adentro, sem muito espaço para mostrar sua arte; e realmente não entendo por qual razão o rádio ainda reproduz os mesmos sons e as telas, as mesmas faces. O rock n' roll, aqui e hoje (quiçá arrisque dizer que assim o é também em outras paragens) é como um ator sem um papel a representar, que sobe no palco sóbrio demais e, mesmo sem saber o que fazer (e não fazendo "lhufas" mesmo), acaba aplaudido por uma platéia cega e surda; muda, não é: ela fala, quase sempre coisas inúteis. Mas fala. Prova disso é a intolerância que quase sempre caracteriza a ausência de diálogo sobre o tema: cada um defende agredindo o outro aquilo que gosta ou julga gostar.

É a verdadeira sociedade de espetáculo traçada há muito por Guy Debord, agora revestida pelos traços de uma frústula chamada hiperconsumo, consectário da hipermodernidade, como bem identificou Gilles Lipovetsky. E nesse palco se encaixa a "música rock" do século XXI, sem um papel a representar, mesmo com inúmeras causas carentes de defesa espalhadas pela rua, mendigando atenção, desde aquelas que criam o riso, como outras que provocam as lágrimas. Aliás, uma voz escondida nos recôncavos da mente me alerta: talvez exista sim um papel, uma função para o rock brasileiro representar/desempenhar: ser o condutor dessa voz cega e surda que já há muito não tem o que dizer.

Mas ainda há tempo. Não precisamos esperar que outro garoto de Aberdeen sobote as estruturas do tablado que sustenta esse espetáculo triste para percebemos que nessa peça nada se encena (ou ainda, tudo se encena, de modo bastante falso e artificial).

Temos a oportunidade de transformar o caos em utilidade, de fechar os olhos e realmente enxergar, de ensurdecer os tímpanos para finalmente escutar. Assim, abandonaremos o passado, deixando de ouvir aquilo que já se foi, para construirmos o que todos escutaremos no futuro. Precisamos urgentemente de uma voz, de um som que nos caracterize, de uma mensagem que nos mova. Aqui, longe estou de incitar uma mítica e utópica luta contra os moinhos de vento; apenas quero partilhar aquela fome da alma, que todos nós sentimos, e que precede toda a criação da arte.

Acabo por descobrir o impulso deste ato de escrever. Criar com música. Como bem disse Horácio, hoc erat in votis; "era isso que eu desejava".

4 comentários:

  1. Anthony Mc Courtney10 de julho de 2011 19:53

    Rafael, parabéns! Seu Blog é muito bom. Diferente da mesmice que vemos dia após dia sobre música. Culto e cheio de citações interessantes. Só gostaria que você escrevesse com mais frequencia! Pretendo divulgar! Você escreve somente de rock? Ou as vertentes do rock? Abs, Anthony

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  2. Caro Anthony,

    Por primeiro, agradeço sinceramente seu comentário. Como você bem notou, há muito não escrevia neste espaço e, ao esboçar um retorno, é muito bom receber este tipo de manifestação!

    Gosto muito de escrever, independente do objeto ou assunto; é um vício, daqueles que, se acarretam prejuízo, ao menos esses não se revelam de imediato. Quanto a música, rock é a paixão e terreno no qual me sinto seguro, mas já aqui existem algumas resenhas de outras vertentes, como o jazz, uma outra paixão que possuo.

    Enfim, parei de escrever por aqui porque muita gente aparecia para perturbar, ao invés de construir, e isso derruba qualquer tipo de estímulo.

    Mas, graças a sua mensagem, volterei ao batente. Espero que melhor.

    Muito obrigado!

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  3. Anthony Mc Courtney31 de agosto de 2011 01:22

    Fala meu caro pensador!

    Acabei de sair do show do RHCP, que vi pela tela do cinema via mobz. O show foi na Alemanha e era o lançamento do CD This I Know. Não vi nenhum post da banda aqui portanto resolvi dar a sugestão. O CD tá diferente primeiramente porque o guitarrista não é o mesmo. Segundo porque eles adicionaram instrumentos na composição das músicas, entre eles, um set de percussão bem completo, piano (flee tocando) e trompete. O som ainda não está muito fácil de analisar. É preciso ouvir mais porém, definitivamente o som punk/rap/funk com o rock já não domina tanto. Dedicar um tempo para ouvir "do i let you know" vale a pena. Bem catchy. Bom, sugestão dada, vou me retirar. Um forte abraço!
    Anthony

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